
Investigadores criam ferramenta para compreender agricultura moçambicana
Investigadores do projecto “Crescimento Inclusivo em Moçambique”, conduzido pelo Centro de Estudos de Economia e Gestão da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e seus parceiros, desenvolveram uma base de dados harmonizada do sector agrário. Trata-se de uma compilação de relatórios sobre a agricultura moçambicana, produzidos entre 2002 e 2020, oferecendo, pela primeira vez, um repositório consistente e detalhado de informações sobre o sector ao longo desse período.
A construção desta base de dados teve início em 2023, como parte de uma pesquisa voltada para a análise da situação agrícola no país. O foco do estudo recaiu sobre a agricultura familiar, que abrange áreas de até 50 hectares e representa, aproximadamente, 98% dos produtores agrícolas em Moçambique.
Durante a apresentação do relatório “Desenvolvimento Agrário em Moçambique: Tendências, Desafios e Oportunidades”, o investigador Firn Tarp explicou que os dados foram originalmente recolhidos pelo Ministério da Agricultura e pelo Instituto Nacional de Estatística. No entanto, estavam dispersos e careciam de padronização. “O nosso trabalho foi harmonizar as informações para conferir mais simplicidade e consistência, pois, os relatórios existentes, não possuíam conexão entre si”, ressaltou.
Apesar dos avanços observados, a harmonização dos dados permitiu identificar que o crescimento do sector agrícola moçambicano não se traduziu em transformação efectiva. O sector ainda enfrenta desafios estruturais significativos, entre os quais os ciclos de conflitos que comprometem a estabilidade necessária para o desenvolvimento sustentável da agricultura; os principais centros urbanos estão afastados das zonas de produção, dificultando a logística e a comercialização dos produtos; eventos climáticos extremos, crises económicas e instabilidades políticas que impactam a produção agrícola.
Outrossim, Flip Tarp notou que as condições do clima e solos, ao longo do território nacional, são bastante variadas. “Por exemplo, o Vietname tem grandes áreas iguais, é possível introduzir um único tipo de semente e gerar produção em grande escala, o que não é o caso de Moçambique.”
O investigador destacou, ainda, que, embora Moçambique tenha avançado significativamente na elaboração de planos, políticas e estratégias para o sector agrícola, os resultados esperados ainda não foram alcançados. “Muitos desses documentos estiveram focados em assuntos e projectos concentrados no Ministério e não desceram à base”, observou Tarp.