Skip to main content

Universidade Eduardo Mondlane

Search
Logo-UEM-A3-01

Felisberto Navalha: Da UEM para a liderança da política monetária

Felisberto Navalha, formado e docente da Universidade Eduardo Mondlane e PCA da Fundação Universitária, assume o Banco de Moçambique, com a missão de aproximar a estabilidade macroeconómica da economia real

Da sala de aulas da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) para o mais alto pedestral do Banco de Moçambique, o percurso de Felisberto Dinis Navalha cruza academia, investigação e quase três décadas de experiência na banca central. Agora, como Governador, o economista é chamado a colocar esse conhecimento ao serviço de um desafio maior: assegurar que a estabilidade monetária e financeira deixe de ser percebida apenas através dos grandes indicadores e produza efeitos concretos na vida das famílias, das empresas e dos trabalhadores.

Foi esse, no essencial, o recado deixado pelo Presidente da República, Daniel Chapo, ao empossar Navalha, no dia 2 de Setembro, em Maputo. Para o Chefe do Estado, a mudança na liderança do Banco Central deve marcar um novo ciclo em que estabilidade e transformação económica caminhem lado a lado. Felisberto Navalha sucede a Rogério Zandamela, cujo mandato terminou a 31 de Agosto último.

A chegada ao topo da autoridade monetária nacional representa, também, um ponto alto de uma trajectória fortemente ligada à UEM. Natural de Mussimua, no distrito de Sussundenga, em Manica, Navalha concluiu a Licenciatura em Economia na Universidade Eduardo Mondlane, em 1996, onde, mais tarde, em 2012, obteve o mestrado em Economia do Desenvolvimento.

Mantém-se ligado à instituição como docente da Faculdade de Economia, onde leccionou disciplinas como Introdução à Macroeconomia, Macroeconomia I e Economia Monetária. Antes da nomeação, Navalha exercia as funções de Presidente do Conselho de Administração da Fundação Universitária da UEM, desde 2024.

É, assim, um académico habituado a explicar aos estudantes os mecanismos da política monetária que passa agora a assumir a responsabilidade máxima pela condução dessa política no país.

Uma formação que encontra a prática

A nomeação de Felisberto Navalha projecta uma trajectória na qual a Universidade e o Banco Central praticamente caminharam em paralelo.

No mesmo ano em que concluiu a licenciatura em Economia, na UEM, em 1996, iniciou o seu percurso profissional no Banco de Moçambique. Ao longo dos anos, passou por funções técnicas e de gestão, com particular incidência nos estudos económicos e estatísticos. Entre 2011 e 2017 dirigiu o Departamento de Estudos Económicos e, de 2017 a 2022, integrou o Conselho de Administração como Administrador.

O próprio Presidente da República destacou esse percurso ao apresentar o conhecimento acumulado dentro da instituição como um dos principais activos do novo Governador. Navalha, lembrou Chapo, dedicou 28 anos da sua vida profissional ao Banco de Moçambique, tendo passado pela Direcção de Estudos Económicos e Estatísticas e pelo Conselho de Administração, além de ter sido consultor na Autoridade Tributária e docente da Faculdade de Economia da UEM.

O regresso ocorre, portanto, num patamar diferente. Se, antes, Navalha participou na produção de estudos, análise da conjuntura e decisões da instituição, agora passa a responder pela sua liderança.

Chapo quer estabilidade que se sinta fora dos números

O desafio colocado pelo Presidente da República começa, exactamente, num terreno familiar ao economista e docente: encontrar o equilíbrio entre estabilidade macroeconómica e desenvolvimento.

Para Chapo, a missão do Banco Central não pode ser reduzida à conservação de bons indicadores. A estabilidade deve criar condições para investimento, produção, exportações, emprego e melhoria efectiva das condições de vida. “Queremos estabilidade, mas queremos, igualmente, que os benefícios dessa estabilidade sejam sentidos na economia real”, afirmou o Chefe do Estado.

O Presidente afastou, deste modo, uma falsa escolha entre estabilidade e crescimento. A inflação baixa e uma moeda credível continuam fundamentais, mas devem constituir uma plataforma para um crescimento sustentável e inclusivo. A inflação, recordou, corrói o poder de compra e penaliza sobretudo os cidadãos de menores rendimentos.

A mensagem presidencial coloca uma dimensão social sobre matérias tradicionalmente apresentadas através de taxas, índices e projecções.

Da teoria monetária aos problemas da economia real

É justamente aqui onde a ligação de Navalha à Universidade ganha outra dimensão.

Durante anos, o novo Governador esteve ligado ao ensino de Macroeconomia e Economia Monetária na Faculdade de Economia da UEM. A sua carreira académica inclui, igualmente, investigação e produção de trabalhos sobre a economia moçambicana.

Agora, algumas das questões discutidas no espaço académico deixam de ser apenas objectos de ensino e investigação para se transformarem em decisões que terão impacto directo sobre a economia nacional.

Taxas de juro, inflação, oferta monetária, crédito, mercado cambial, reservas internacionais e estabilidade financeira deixam de constituir apenas categorias de análise: passam a integrar o quotidiano das decisões sob sua responsabilidade enquanto Governador.

E, Daniel Chapo, foi explícito quanto ao resultado esperado: o Banco Central deve conhecer “a economia que existe por detrás dos números”, dialogar com o “Moçambique real” e trabalhar com base na economia real.

Divisas: um dos primeiros grandes testes

Um dos dossiers mais sensíveis colocados sobre a mesa do novo Governador é o funcionamento do mercado cambial.

Chapo reconheceu as preocupações dos agentes económicos relativamente ao acesso às divisas para importação de matérias-primas, equipamentos e realização de outras operações indispensáveis à actividade empresarial. “Essas preocupações devem merecer a vossa atenção”, recomendou, exigindo rigor, responsabilidade e transparência na identificação dos constrangimentos e procura de soluções sustentáveis.

Mas o Presidente advertiu que não existe solução exclusivamente monetária para o problema. A resposta estrutural passa, igualmente, por aumentar a produção, diversificar exportações, transformar localmente os recursos nacionais e atrair investimento produtivo. Daí a exigência de diálogo permanente entre os responsáveis pelas políticas monetária, fiscal e financeira.

O financiamento da economia constitui outro grande teste. Chapo mostrou preocupação com o crescimento da dívida pública interna e os seus potenciais efeitos sobre as taxas de juro, a liquidez e a disponibilidade de recursos para o sector produtivo.

O alerta é para evitar que as necessidades financeiras do Estado acabem por retirar espaço às empresas e aos empreendedores. Agricultura, indústria, turismo, transportes e logística, pequenas e médias empresas, jovens e mulheres precisam igualmente de financiamento para produzir e crescer.

O Banco Central não decide a quem os bancos comerciais devem conceder crédito, reconheceu Chapo. Mas pode contribuir para construir um sistema financeiro sólido, competitivo, transparente, moderno e eficiente.

O Presidente traduziu o problema em perguntas simples: como acelerar a industrialização se as empresas não conseguem financiar máquinas e equipamentos? Como desenvolver cadeias de valor se o produtor não consegue financiar a produção? São perguntas que colocam a política monetária diante do desafio do desenvolvimento.

Há ainda uma transformação em curso que Navalha terá de acompanhar: a digitalização do sistema financeiro. Fintech, pagamentos digitais e cibersegurança estão a mudar rapidamente a actividade financeira. Chapo quer inovação, mas sem perda da estabilidade e da capacidade de supervisão.

Mais do que modernização tecnológica, o Presidente vê nesse processo uma oportunidade para aprofundar a inclusão financeira. “O sistema financeiro não pode ser uma realidade apenas dos grandes centros urbanos”, advertiu. Deve chegar ao produtor rural, à pequena empresa, à mulher empreendedora e ao jovem que procura transformar uma ideia numa empresa.

Assim, uma das medidas do sucesso da nova liderança poderá estar, precisamente, fora dos edifícios do Banco Central: na capacidade de mais moçambicanos acederem a serviços financeiros capazes de apoiar as suas iniciativas económicas.

A academia chamada a entrar no diálogo

Entre as orientações deixadas ao novo Governador há uma que encontra eco particular no seu percurso universitário. Chapo pediu a Navalha que escute a economia e dialogue com o Governo, sector financeiro, sector privado e as academias.

Não é uma referência menor para alguém que chega à liderança do Banco Central vindo também da academia. Na Faculdade de Economia da UEM, Navalha mantém contacto com estudantes e com a produção e discussão do conhecimento económico. Na Fundação Universitária, participa numa estrutura vocacionada para apoiar a Universidade. Agora, o desafio será também construir pontes entre o conhecimento produzido na academia e as decisões de política económica.

O Presidente pediu ainda que a a comunicação com os cidadãos seja feita com clareza, lembrando que confiança se constrói através da previsibilidade, transparência e integridade.

A agenda presidencial não olha apenas para fora do Banco. Chapo quer que Navalha valorize o capital humano que encontra na instituição. O novo Governador recebe, segundo o Presidente, um Banco com história, conhecimento acumulado e quadros qualificados.

A orientação é clara: investir na formação e capacitação, acompanhar tendências internacionais e promover mérito, competência, responsabilidade, integridade e profissionalismo.

Também, aqui, a experiência universitária poderá constituir um activo. Formação, investigação e actualização do conhecimento fazem parte da cultura académica que acompanha Navalha no regresso à instituição onde desenvolveu a maior parte da carreira profissional.

A mensagem de Chapo resume-se em: preservar as conquistas dos últimos dez anos, corrigir o que não funciona, modernizar o necessário e preparar o Banco de Moçambique para acompanhar uma economia que pretende transformar-se.

Um percurso que também projecta a UEM

A chegada de Felisberto Navalha ao Banco de Moçambique pode, por isso, ser lida também a partir da Universidade Eduardo Mondlane.

É a história de um estudante de Economia que concluiu a formação, na UEM, em 1996, ingressou no Banco Central, especializou-se em Economia do Desenvolvimento, cresceu profissionalmente na Instituição, chegou ao Conselho de Administração e, paralelamente, manteve ligação à Universidade como docente e dirigente da Fundação Universitária.

Três décadas depois da licenciatura, chega à liderança da instituição que ocupa o centro da política monetária nacional.

Para a UEM, a trajectória evidencia uma das dimensões do impacto de uma universidade pública: formar quadros que, em diferentes momentos, são chamados a assumir responsabilidades estratégicas na condução do país. No caso de Navalha, essa relação não terminou com a graduação. Prosseguiu pela docência, investigação e gestão universitária.

E há uma coincidência particularmente simbólica no desafio que agora recebe. O Presidente pede ao novo Governador que o Banco dialogue com a academia, valorize conhecimento e quadros qualificados, escute a economia real e transforme evidências em decisões.

É uma fronteira que Navalha conhece dos dois lados.

No final, porém, o teste da nova liderança não será determinado pelo currículo do Governador nem pela instituição onde se formou. Será medido pelos resultados.

Chapo encerrou os recados ao novo dirigente retirando a política monetária do domínio abstracto das estatísticas.

Por detrás dos indicadores, taxas de juro, reservas e decisões de política monetária, lembrou, encontram-se famílias, empresas, trabalhadores e as aspirações de milhões de moçambicanos.

É talvez nessa frase que se concentra o mandato político deixado ao economista formado pela UEM.