
ECA celebra Moreira Chonguiça e Jimmy Dludlu
Universidade Eduardo Mondlane homenageia dois dos mais destacados nomes do jazz moçambicano e realça o seu contributo para a cultura, formação artística e afirmação da identidade africana
A Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane (ECA-UEM) homenageou, numa assentada, duas figuras de referência da música moçambicana, Moreira Chonguiça e Jimmy Dludlu, reconhecendo trajectórias marcadas pela excelência artística, internacionalização da música moçambicana e transmissão de conhecimentos às novas gerações.
As homenagens, realizadas em momentos distintos, fazem parte de uma iniciativa da ECA destinada a reconhecer personalidades que têm contribuído para o desenvolvimento das artes, da comunicação e da cultura em Moçambique.
Moreira Chonguiça: uma carreira para além dos palcos
Numa semana efervescente, a 18 de Setembro, a ECA decidiu homenagear o saxofonista, produtor, empreendedor cultural e etnomusicólogo Moreira Chonguiça, pelo seu contributo para a identidade moçambicana através da música.
Reconhecido pela sua abordagem ao Afro World Jazz, Chonguiça construiu uma linguagem musical que cruza elementos das raízes culturais moçambicanas com referências do jazz contemporâneo.
A cerimónia foi presidida pelo Reitor da UEM, Prof. Doutor Manuel Guilherme Júnior, que destacou o percurso nacional e internacional do artista. Para o dirigente universitário, Moreira Chonguiça conseguiu levar a música moçambicana a diferentes palcos internacionais, interpretando grandes referências musicais a partir de uma perspectiva africana.
Mas, para além dos discos, prémios e actuações, o Reitor chamou atenção para a capacidade do músico de criar oportunidades para outros artistas.
Entre as iniciativas destacadas estão o More Jazz Series e a Moz Jazz Big Band, projectos que contribuíram para dinamizar o jazz em Moçambique. “Não guardar para si aquilo que aprendeu e criar condições para que os outros possam crescer”, sublinhou Manuel Guilherme Júnior, apontando essa dimensão como uma das marcas do percurso do artista.
O compromisso de Chonguiça com a juventude também foi evidenciado, sobretudo através da formação musical e de projectos que aproximam a música da educação e das comunidades.
A sua actividade ultrapassa ainda a performance musical, incluindo produção para artistas africanos, documentários e participação em grandes eventos nacionais e internacionais.
Entre os momentos de maior visibilidade estiveram a sua participação na Cimeira EUA-África, realizada em Maputo, e na programação cultural da inauguração presidencial da Namíbia.
Ao receber a homenagem, Moreira Chonguiça defendeu a necessidade de construir uma narrativa cultural capaz de projectar Moçambique para outros patamares.
O músico sustentou que é através da cultura que os países permanecem na memória colectiva, apelando à valorização do património artístico nacional. “Não conheço nenhuma nação que vai ser lembrada por causa de uma árvore ou de um edifício ou pirâmide, mas por causa da cultura”, concluiu.
Jimmy Dludlu: 40 anos de uma guitarra com raízes africanas
Três dias antes da homenagem a Chonguiça, a UEM havia celebrado os 40 anos de carreira de Jimmy Dludlu, guitarrista, compositor e docente da ECA.
A homenagem aconteceu a 15 de Setembro, durante a Masterclass “Jimmy Dludlu: Notas Biográficas e Experiências de Composição e Arranjo”, na Sala Magna da ECA.
Perante estudantes, docentes e público, Dludlu revisitou diferentes etapas da sua carreira e partilhou experiências sobre composição, arranjo e criação musical.
No final da sessão, recebeu das mãos do Reitor da UEM um diploma de reconhecimento.
Manuel Guilherme Júnior destacou uma carreira dedicada à música, à formação e à afirmação da identidade africana, salientando que o percurso de Dludlu atravessou fronteiras e aproximou diferentes culturas.
Nascido em Maputo, o músico iniciou a aprendizagem, ainda jovem, no bairro de Chamanculo. Posteriormente, viveu experiências musicais em diferentes países, contacto que contribuiu para a construção de uma identidade artística própria.
Ao longo da carreira, trabalhou com grandes referências da música africana, incluindo Miriam Makeba e Hugh Masekela.
A experiência internacional, segundo o Reitor, foi igualmente importante para que o artista desenvolvesse uma linguagem musical assente nas suas raízes africanas e moçambicanas.
Da sala de aula para o palco
A relação de Jimmy Dludlu com a ECA acrescenta uma dimensão particular à homenagem.
Docente da instituição desde 2006, o músico tem participado na formação de estudantes e no desenvolvimento de bandas de Afrojazz.
Para a Universidade, a sua presença representa uma ponte entre a academia e o mundo profissional, entre a sala de aula e o palco e entre a tradição e a inovação.
A UEM defende, por isso, que experiências como a de Dludlu devem ser investigadas, documentadas e transformadas em objecto de estudo académico. “Queremos que a experiência dos nossos artistas seja investigada, que as nossas práticas sejam documentadas e que os nossos repertórios sejam estudados”, sublinhou o Reitor.
Composição, arranjo, performance, Afrojazz, identidade cultural e criação musical africana são algumas das áreas apontadas como relevantes para esse trabalho.
A própria trajectória do músico evidencia essa ligação entre experiência profissional e formação. Dludlu recordou que chegou à ECA por convite do antigo Presidente da República, Armando Guebuza, que o incentivou a transmitir, através do ensino, os conhecimentos adquiridos durante a sua experiência profissional além-fronteiras.
Durante a masterclass, o artista apresentou ainda alguns dos reconhecimentos recebidos em Angola este ano, entre eles o African Award Leaders Excellence, atribuído em Abril, e distinções relacionadas com a Cultura de Paz e o Dia Internacional do Jazz, através da Resiliart Angola e da UNESCO em Angola.
A sessão terminou com uma actuação do músico. Com a guitarra em mãos, Jimmy Dludlu transformou a Sala Magna da ECA num palco, perante uma plateia composta por estudantes, docentes e público.
