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Universidade Eduardo Mondlane

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Alvo Ofumane lança “Tsevele”

Livro reúne contributos sobre cosmologias, identidade e conhecimentos locais e desafia os moçambicanos a assumirem-se como produtores e intérpretes dos seus próprios saberes

A Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane acolheu, na Quarta-feira (30/09), o lançamento do livro “Tsevele: Epistemologias da Moçambicanidade – Cosmologias, Identidade, Saberes Locais e Recentragem Epistemológica”, coordenado pelo docente Alvo Ofumane, uma obra que coloca os conhecimentos produzidos nas comunidades no centro da reflexão sobre Moçambique.

Com 102 páginas, Tsevele nasce da preocupação de documentar, valorizar e conferir maior visibilidade aos conhecimentos, práticas e experiências locais, muitos dos quais permanecem à margem dos espaços convencionais de produção e legitimação do conhecimento académico e científico.

Organizado em quatro secções – Artes e Tradições; Saberes e Práticas; Espaços e Monumentos; e Gastronomia e Plantas –, o livro propõe uma recentragem epistemológica: olhar para a realidade moçambicana a partir das experiências, referências, práticas culturais e formas de conhecimento produzidas no próprio país.

Para Alvo Ofumane, coordenador da obra, Tsevele resulta, precisamente, da necessidade de organizar e preservar diferentes manifestações do conhecimento local, incluindo as formas pelas quais esses saberes são produzidos, transmitidos e preservados entre gerações.

Segundo explicou, o livro procura deslocar o centro a partir do qual o conhecimento sobre Moçambique é produzido, valorizando pessoas, comunidades e experiências que nem sempre encontram espaço nos circuitos tradicionais de reconhecimento académico e científico. “O projecto envolve cerca de quinze jovens, distribuídos por diferentes regiões do país, que participaram na documentação de conhecimentos e experiências das comunidades. A iniciativa pretende aproximar os saberes locais das transformações sociais”, afirmou.

Um convite para Moçambique interpretar-se a si próprio

Na apresentação da obra, o Professor Severino Ngoenha destacou a dimensão epistemológica de Tsevele, defendendo que o conhecimento não se constrói no vazio, mas através da criação e interpretação de símbolos.

O académico observou que África foi, durante muito tempo, interpretada e descrita a partir de olhares externos. Neste contexto, Tsevele coloca aos africanos e, particularmente, aos moçambicanos, o desafio de produzirem conhecimento sobre as suas próprias realidades e de se assumirem como intérpretes das suas práticas, experiências e património cultural. “O que confere homogeneidade a este livro, apesar da diversidade de expressões, fórmulas e temáticas abordadas, é que o livro pretende dizer, essencialmente, que podemos falar mais sobre aquilo que fazemos”, explicou.

Nesta perspectiva, a diversidade temática da obra não constitui uma dispersão. Artes, tradições, gastronomia, plantas, monumentos, práticas sociais e outros saberes são apresentados como diferentes portas de entrada para compreender as formas através das quais as comunidades moçambicanas constroem, conservam e transmitem conhecimento.

Para Ngoenha, para além das epistemologias que apresenta, o livro desafia os leitores a interpretarem as suas próprias práticas culturais, aquilo que fazem e aquilo que sabem, transformando experiências quotidianas em objectos de reflexão e produção de conhecimento.

Das comunidades para o livro

A dimensão colectiva de Tsevele foi, igualmente, destacada por Vanila Amadeu, em representação dos colaboradores da obra. Segundo explicou, a produção dos textos implicou contacto directo com pessoas e comunidades que partilharam histórias, experiências e conhecimentos que, em muitos casos, permanecem fora dos registos formais.

É precisamente nesse encontro entre documentação, memória e reflexão que o livro procura construir a sua contribuição: registar saberes antes que se percam e criar condições para que possam dialogar com os desafios contemporâneos.

Ao reunir diferentes experiências e conhecimentos produzidos no território moçambicano, Alvo Ofumane e os colaboradores de Tsevele procuram, assim, demonstrar que as comunidades não são apenas objectos sobre os quais se produz conhecimento, mas também sujeitos que produzem, conservam e transmitem saberes.

Publicada sob a chancela da Sn Editora, a obra apresenta-se, deste modo, como um contributo para a preservação da memória e dos conhecimentos locais e, simultaneamente, como um convite à valorização da capacidade de Moçambique de pensar, interpretar e produzir conhecimento sobre si próprio.