
África deve assumir o controlo da sua própria narrativa cultural
Defende músico Stewart Sukuma
O continente africano precisa de assumir o controlo da sua própria narrativa cultural, rejeitando que o seu valor seja definido por potências ou padrões externos. Esta foi a principal mensagem defendida pelo ícone da música moçambicana, Stewart Sukuma, durante o Colóquio alusivo ao Dia de África, realizado na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), no painel subordinado ao tema “Juventude Africana: Entre Tradição e Transformação”.
Na sua intervenção, Sukuma afirmou que um dos maiores desafios enfrentados pelos países africanos reside na insuficiente valorização da sua própria cultura pelos próprios africanos. Segundo o músico, o reconhecimento de muitos artistas continua dependente da validação internacional. “Muitos dos nossos criadores dependem de financiamentos, festivais, curadorias estrangeiras e de narrativas construídas fora do continente, não por falta de talento, mas porque as nossas estruturas culturais continuam frágeis”, afirmou.
Para o artista, esta realidade limita a autonomia criativa e contribui para a perpetuação de uma relação desigual entre África e os centros globais de produção cultural.
Reflectindo sobre o conceito de independência, Sukuma defendeu que a liberdade dos povos africanos só será plena quando for acompanhada de independência cultural, económica, psicológica, moral e simbólica. “Aceitamos essa condição como se fosse normal. É como se a África estivesse condenada a fornecer matéria-prima, mas nunca pensamento. Exporta-se talento e importa-se legitimidade”, lamentou.
O músico rejeitou a ideia de uma África incapaz de produzir conhecimento e pensamento próprios, recordando o contributo histórico do Continente para áreas como a espiritualidade, a ciência, a organização comunitária, a resistência e as manifestações culturais. “Mesmo marcada pela colonização, pela exploração, pelas guerras e por sucessivas dependências económicas, a África continua a produzir beleza e criatividade em condições quase impossíveis”, destacou.
Stewart Sukuma alertou, igualmente, para a necessidade de melhorar as condições de trabalho dos artistas africanos, defendendo que a precariedade não deve ser encarada como um destino inevitável. “O artista africano deve recusar o papel de herói sacrificado. A sobrevivência na precariedade não pode ser transformada em identidade. A paixão sem estrutura transforma talento em desgaste”, advertiu.
Como alternativa, defendeu a criação de ecossistemas culturais sustentáveis, assentes em mecanismos de financiamento, educação artística, políticas públicas consistentes e mercados culturais fortes. “Precisamos de instituições que compreendam que a cultura não é apenas um elemento decorativo para datas comemorativas. A cultura é estratégia, diplomacia e poder”, afirmou.
O músico concluiu sustentando que o futuro de África não será construído apenas com recursos minerais, gás natural ou megaprojectos, mas também com a capacidade dos africanos de contarem a sua própria história com autonomia e confiança.