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Universidade Eduardo Mondlane

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África desvenda o seu passado a partir de Moçambique

PANAF 2026 coloca o país no centro da investigação arqueológica e da gestão integrada do património africano

Moçambique entrou para a história da arqueologia africana ao acolher, pela primeira vez, o 17.º Congresso da Associação Pan-Africana de Arqueologia para a Pré-História e Estudos Relacionados (PANAF 2026), na Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Sob o lema “Desvendando a Arqueologia e o Património Africano Sem Fronteiras”, o encontro reuniu especialistas de vários continentes para discutir novos paradigmas de investigação, conservação e gestão integrada do património cultural e natural de África.

A realização do mais prestigiado congresso pan-africano da área representa um marco para Moçambique, que passa a assumir um papel de maior protagonismo na produção de conhecimento científico sobre a história do continente e na definição de estratégias de preservação do seu património. Para além da dimensão académica, o evento abre novas perspectivas para o fortalecimento da cooperação internacional, do turismo cultural, da investigação científica e da valorização das comunidades detentoras desse património.

Na cerimónia de abertura, o Reitor da UEM, Prof. Doutor Manuel Guilherme Júnior, destacou que a escolha de Maputo para acolher o PANAF 2026, decisão tomada durante a edição anterior, realizada em Zanzibar, traduz o reconhecimento internacional da qualidade da investigação arqueológica desenvolvida em Moçambique e da capacidade científica e organizativa da Universidade Eduardo Mondlane.

Segundo o Reitor, “ao longo da sua história, os congressos da PANAF consolidaram-se como espaços privilegiados para a reflexão crítica sobre o passado africano e sobre o contributo do património para o desenvolvimento sustentável das sociedades contemporâneas, disse.”

Durante os próximos dias, Maputo transforma-se na capital africana da arqueologia, acolhendo investigadores, académicos e especialistas que irão debater temas ligados à evolução humana, às culturas pré-históricas, às transformações paleoambientais, à arqueologia pública, à protecção do património e aos novos modelos de gestão integrada dos recursos culturais e naturais.

Para Manuel Guilherme Júnior, este intercâmbio científico reforça a importância da arqueologia na compreensão das origens, da diversidade cultural e das trajectórias históricas do continente, contribuindo, igualmente, para a construção de soluções comuns para os desafios actuais de África.

Património como oportunidade para as novas gerações

O presidente da PANAF, Prof. Doutor Elgidius Ichumbaki, defendeu que a arqueologia deve dialogar, cada vez mais, com a juventude africana. Recordou que mais de 69 por cento da população do continente é composta por jovens, o que exige novas formas de comunicar a importância do património arqueológico como fonte de identidade, educação, inovação e desenvolvimento.

Na sua visão, preservar o património africano significa também criar oportunidades para que as novas gerações compreendam a sua história e participem activamente na construção do futuro do continente.

Uma arqueologia voltada para as comunidades

A docente e investigadora da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM, Prof.ª Doutora Solange Macamo, destacou que o congresso reflecte uma evolução significativa da investigação arqueológica, hoje orientada para uma abordagem integrada entre património cultural, património natural e desenvolvimento comunitário. “Essa combinação poderá beneficiar as comunidades locais. Temos sido chamados a olhar para a comunidade e não para uma academia fechada sobre si própria. Por isso, o projecto de Parque Arqueológico que estamos a desenvolver vai ao encontro desse propósito de beneficiar a comunidade”.

Segundo explicou, os projectos actualmente desenvolvidos pela UEM procuram transformar o conhecimento científico em benefícios concretos para as populações locais.

Colaboração académica: pilar para a construção da identidade regional

O especialista em arqueologia subaquática e docente da UEM, Prof. Doutor Ricardo Teixeira, reconheceu o papel da pesquisa arqueológica desenvolvida ao longo dos anos por investigadores da região como fundamental para a construção do conhecimento sobre os povos da África Austral e para o fortalecimento da identidade das nações africanas. Destacou, contudo, as facilidades proporcionadas pelos diversos povos da região, cuja colaboração foi essencial para a construção das civilizações.

O académico falava na qualidade de orador principal do 17º Congresso Pan-Africano de Arqueologia, realizado em Maputo, durante uma palestra subordinada ao tema “Construção de Identidades na África Austral: o Papel da Arqueologia”.

Com cerca de 50 anos de experiência profissional na Universidade Eduardo Mondlane, onde exerceu funções de docente e investigador, Teixeira recordou a sua participação no 1.º Encontro Africano de Arqueologia, em 1977. Segundo afirmou, a partilha de conhecimentos naquele encontro constituiu a base para o desenvolvimento de pesquisas subsequentes na área arqueológica, que contribuíram para a construção da identidade dos povos da região.

Em Moçambique, o académico destacou a criação do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM, que ajudou no desenvolvimento de uma nova abordagem da historiografia africana, ultrapassando as visões restritas da antropologia social e da etnografia, consideradas limitadas, e promovendo uma perspectiva mais moderna sobre a identidade regional.

Teixeira lembrou ainda a visita que efectuou, integrando o primeiro grupo de arqueólogos, à região de Manyikeni, no Grande Zimbabwe, onde encontrou um cenário de total abandono. “Nessa altura, a colaboração dos diferentes povos da região foi fundamental para a construção de uma identidade”, afirmou.

Nesse sentido, defendeu uma maior intervenção da arqueologia na consciencialização e educação patriótica da população, promovendo visitas a locais históricos e incentivando mais estudos sobre sítios arqueológicos como mecanismo de partilha do conhecimento com os diferentes segmentos sociais, com especial incidência sobre a nova geração envolvida na construção do país.

Entretanto, reconheceu o papel das parcerias académicas, sobretudo com Madagáscar, Comores, Quénia e África do Sul, que contribuíram para a construção do conhecimento existente sobre a identidade dos povos da região, incluindo o estudo da expansão islâmica em toda a extensão costeira da África Austral.

Durante a sua apresentação, o orador recorreu a imagens de artefactos arqueológicos para ilustrar as diferentes etapas da construção da identidade dos povos por meio da arqueologia.