
50 Anos do Centro de Estudos Africanos: Narciso Matos defende um CEA mais interventivo
O antigo Reitor da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Prof. Doutor Narciso Matos, defende um Centro de Estudos Africanos (CEA) mais disruptivo, interventivo e ligado à sociedade, à semelhança do que acontecia na década de 1980, alguns anos após a sua criação, quando procurava soluções para os desafios daquela época.
Ao celebrar 50 anos, o académico defende um revisitar do passado, com maior destaque para as principais contribuições científicas que marcaram os primórdios da sua criação, em 1976, como forma de melhor orientar o CEA nos dias de hoje.
Falando numa mesa-redonda subordinada ao tema “50 Anos do CEA: um olhar sobre o percurso histórico e científico”, Narciso Matos recorreu ao passado para explicar que o CEA de Ruth First e Aquino de Bragança, embora mantivesse ligações com o poder político, era independente e mais criativo do que o CEA dos dias actuais.
“Era um CEA que estava por dentro dos acontecimentos da época, dos artigos sobre as negociações da independência do Zimbabwe e também do Acordo de Incomáti, entre outros contributos do CEA”, disse.
Lembrou que o CEA não nasceu de um acto isolado, mas de um contexto de refundação do Instituto de Investigação de Moçambique, que já existia no país desde 1951.
Na abertura, a Vice-Reitora da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Prof.ª Doutora Amália Uamusse, defendeu que, passados 50 anos, o Centro de Estudos Africanos deve questionar paradigmas, produzir evidências, propor alternativas e contribuir para decisões mais informadas.
“Queremos uma Universidade que coloque a investigação no centro da sua missão, que promova a interdisciplinaridade, que valorize a publicação científica, que forme novas gerações de investigadores, que fortaleça as redes nacionais, regionais e internacionais e que transforme o conhecimento produzido nas suas Faculdades, Escolas e Centros em instrumentos de desenvolvimento da sociedade”, afirmou.
A Vice-Reitora defendeu ainda que a investigação científica deve ser encarada como um investimento estratégico na soberania intelectual, no desenvolvimento e no futuro de Moçambique.
“A UEM deve continuar a defender a ideia de que investir em investigação científica não é uma despesa, é um investimento estratégico na soberania intelectual, no desenvolvimento e no futuro de Moçambique”, referiu.
Por seu turno, o Director do Centro de Estudos Africanos, Prof. Doutor Carlos Arnaldo, destacou o papel histórico do CEA na produção do conhecimento científico, admitindo que uma instituição científica não pode viver apenas do seu passado, mas deve entendê-lo como uma ponte entre a memória e o futuro.
Para o Director, o CEA deve investigar não apenas aquilo que é visível, mas também aquilo que está por detrás dos fenómenos, compreender as causas estruturais dos problemas, ouvir as comunidades, produzir evidências e transformá-las em conhecimento útil para a sociedade.
Referiu que uma universidade de investigação precisa de centros de investigação fortes e que a UEM deve contar com um CEA forte, competitivo, inovador e internacionalizado.
Entretanto, reconheceu que a existência e a afirmação do CEA como centro de investigação não podem ser dissociadas da universidade que o acolhe. A Reitoria tem um papel decisivo na criação de condições, na valorização dos investigadores, na promoção de parcerias e na criação de um ambiente institucional favorável à produção científica.
Explicou que, 50 anos depois, o CEA não pretende apenas sobreviver à história, mas continuar a fazer história através da ciência.
Sublinhou que o futuro coloca uma tarefa exigente: transformar o legado construído em capacidade renovada de investigar.
“Pretende-se um CEA mais interdisciplinar, mais digital, mais internacionalizado e mais próximo da sociedade”, concluiu.