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Universidade Eduardo Mondlane

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UEM eleva legado de Malangatana ao património académico e científico

Outorga do título de Doutor Honoris Causa em Letras, Artes e Cultura cristaliza  as artes como espaço de produção de conhecimento e desafia novas gerações a estudar e preservar a obra do artista

A Universidade Eduardo Mondlane (UEM) atribuiu, nesta Segunda-feira, (14/09), a título póstumo, o grau de Doutor Honoris Causa em Letras, Artes e Cultura a Malangatana Valente Ngwenya, num acto que ultrapassa a homenagem a uma das maiores figuras da cultura moçambicana para inscrever o seu legado artístico, literário, cívico e humanista no espaço académico e científico.

Ao distinguir Malangatana, a Universidade reconhece não apenas a dimensão de uma obra que projectou Moçambique além-fronteiras, mas também o valor das artes e das letras enquanto formas de produção, conservação e transmissão do conhecimento. A outorga abre, deste modo, novas possibilidades para que a obra do artista seja estudada, documentada, interpretada e transmitida às novas gerações como parte da memória e da identidade colectiva do país.

Nascido a 6 de Junho de 1936, em Matalana, no distrito de Marracuene, Malangatana construiu uma linguagem artística profundamente ligada às suas raízes culturais. De formação inicialmente autodidacta, encontrou no desenho, na observação e na experimentação os primeiros caminhos para uma criação que viria a ultrapassar a pintura e a estender-se à gravura, poesia, literatura oral, música e intervenção cultural.

Das galerias para a Universidade: arte reconhecida como conhecimento

Na cerimónia de outorga, o Reitor da UEM, Prof. Doutor Manuel Guilherme Júnior, destacou que a dimensão de Malangatana ultrapassou as fronteiras nacionais, tornando-o numa das figuras mais reconhecidas da arte moderna africana e num dos artistas moçambicanos de maior projecção internacional.

Segundo o Reitor, através da obra de Malangatana, diferentes públicos puderam conhecer Moçambique não apenas pela sua história política, mas igualmente pela sensibilidade, criatividade e riqueza cultural do seu povo.

A actualidade do seu pensamento e da sua criação constitui, para a UEM, uma das principais razões da outorga. Décadas depois da produção de parte significativa da sua obra, Malangatana continua presente nos artistas que inspira, nos investigadores que a estudam, nos estudantes que a descobrem e nas instituições que procuram conservar o seu património.

Manuel Guilherme Júnior destacou, particularmente, a capacidade da criação de Malangatana de estimular a procura de uma identidade colectiva, da coesão e da unidade nacional. Por isso, explicou, a UEM distingue-o pela construção de uma linguagem artística própria, valorização da cultura moçambicana, afirmação da identidade nacional, intervenção cívica e humanista, valorização da memória colectiva e projecção internacional da criação artística nacional. “Ao fazê-lo, a Universidade Eduardo Mondlane reconhece, deste modo, as artes e as letras como formas de produção de conhecimento”, frisou.

A afirmação confere uma dimensão particular à outorga: Malangatana deixa de ser apenas objecto de celebração cultural para se afirmar também como objecto de conhecimento académico, cujo pensamento e produção artística podem alimentar investigação, ensino e reflexão sobre Moçambique.

Uma distinção que pode gerar novas pesquisas

É precisamente na relação entre memória, conhecimento e futuro que reside um dos principais impactos académicos da distinção. A outorga cria condições simbólicas para ampliar o interesse de estudantes, docentes e investigadores pela obra do artista e para fortalecer abordagens interdisciplinares que relacionem artes, história, cultura, identidade, comunicação e sociedade.

A Directora Científica da UEM, Professora Doutora Natasha Ribeiro, explicou que a atribuição do título encontra fundamento no artigo 14 da Lei do Ensino Superior e no Regulamento dos Títulos Honoríficos da Universidade. A proposta foi apreciada e acolhida por unanimidade pelo Conselho Académico, tendo partido da Escola de Comunicação e Artes e da Faculdade de Letras e Ciências Sociais.

Família desafia UEM a transformar homenagem em preservação

Para a família Ngwenya, porém, o impacto da outorga deverá prolongar-se para além da cerimónia. Em representação da família, Mutchine Ngwenya, filho do artista, desafiou a Universidade a assumir um papel cada vez mais activo na investigação, documentação e valorização do legado de Malangatana.

O desafio coloca a academia perante uma responsabilidade concreta: contribuir para que o património deixado pelo artista seja preservado, estudado e disponibilizado às gerações futuras.

Mutchine Ngwenya lembrou que as obras existentes em instituições e espaços públicos não constituem simples elementos decorativos. São, segundo afirmou, documentos da história e da identidade nacional e, por isso, parte da memória colectiva do país. A sua conservação não deve, consequentemente, depender apenas das condições circunstanciais das instituições que actualmente as acolhem.

O legado, explicou, possui duas dimensões. Existe um património material constituído por obras, documentos e lugares, mas há, igualmente, uma dimensão imaterial, expressa na maneira como Malangatana olhava para Moçambique, dialogava com as comunidades e transformava a diversidade cultural do país numa linguagem artística reconhecida internacionalmente.

Matalana: um sonho ainda por concretizar

A homenagem trouxe, igualmente, para o centro do debate o futuro do Centro Cultural de Matalana, concebido pelo próprio artista como espaço de cultura, conhecimento e aprendizagem.

Mutchine Ngwenya recordou que, mais de 15 anos depois, a Fundação continua sem um espaço próprio capaz de reunir, conservar, estudar e dinamizar o património que lhe foi confiado. “Malangatana imaginava Matalana como esse espaço vivo, aberto e virado para o futuro. Não deveríamos permitir que esse sonho permanecesse parado”, afirmou.

O apelo confere à outorga uma dimensão que ultrapassa o reconhecimento simbólico: preservar Malangatana implica criar condições para que a sua obra permaneça viva, acessível e produtora de novos conhecimentos.

Reconhecimento que interpela as novas gerações

A cerimónia reuniu personalidades das áreas política, académica e cultural e representantes da sociedade civil. Entre os presentes, estiveram os antigos Presidentes da República Joaquim Chissano e Armando Guebuza, que felicitaram a UEM pela iniciativa.

Joaquim Chissano considerou a homenagem merecida, “por isso estamos satisfeitos por ver homenageado um artista que tudo fez para a valorização da nossa cultura e da nossa moçambicanidade”, disse.

Armando Guebuza, por sua vez, defendeu que as instituições de ensino ligadas às artes e à cultura devem continuar a promover iniciativas desta natureza. “E é bom que os moçambicanos, em particular as instituições de ensino de arte e cultura, dêem esse passo. A questão que se coloca é: o que mais se pode fazer? É continuar a fazer isto. Isto vai levar estudiosos, jovens, professores e académicos a reflectirem profundamente sobre a questão”, aduziu.