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Universidade Eduardo Mondlane

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Dia de Ensino com recurso à Tecnologia

David Lamas defende transformação digital centrada no ecossistema universitário

Investigador da Universidade de Tallinn alerta que digitalizar processos não é suficiente e defende uma transformação que articule tecnologia, pessoas, cultura institucional, ensino, investigação e relação com a sociedade

A transformação digital das universidades deve ir além da simples digitalização de processos, serviços e procedimentos administrativos e concentrar-se, sobretudo, naquilo que a tecnologia pode, efectivamente, transformar no ensino, na investigação, na extensão e na relação da Universidade com a sociedade.

A reflexão foi apresentada pelo investigador da Universidade de Tallinn, Professor Doutor David Lamas, durante a palestra principal da 6.ª edição do Dia de Ensino com Recurso à Tecnologia, promovido pelo Centro de Informática da Universidade Eduardo Mondlane (CIUEM), sob o lema “Da Cooperação à Inovação: caminhos para a transformação digital na UEM”.

Para David Lamas, um dos principais equívocos associados à transformação digital consiste em tratá-la, essencialmente, como uma questão tecnológica. No contexto universitário, explicou, qualquer intervenção ocorre dentro de um ecossistema complexo, constituído por pessoas, normas, estruturas, infra-estruturas, competências e relações que se influenciam mutuamente.

Segundo o investigador, no ecossistema académico, nenhuma componente funciona de forma completamente isolada. Uma decisão administrativa pode facilitar ou dificultar um projecto de investigação; uma infra-estrutura tecnológica pode criar novas possibilidades para o ensino, a investigação e a extensão ou, pelo contrário, limitar a sua concretização; enquanto a relação da Universidade com empresas e comunidades pode gerar, simultaneamente, oportunidades de aprendizagem, investigação, inovação e empreendedorismo.

Digitalizar não significa, necessariamente, transformar

É neste quadro que David Lamas propõe uma mudança de perspectiva: em vez de se perguntar apenas o que deve ser digitalizado, a Universidade deve questionar o que pretende tornar possível através da tecnologia.

O investigador advertiu que qualquer alteração introduzida numa das componentes do ecossistema universitário pode desencadear efeitos noutras áreas, alguns previsíveis e outros inesperados. Por isso, a transformação digital exige uma visão integrada, capaz de compreender as interdependências existentes dentro da instituição.

A Universidade, acrescentou, não parte de um vazio. Possui uma história, regulamentos, estatutos, recursos, infra-estruturas, competências acumuladas, estruturas organizacionais e uma cultura institucional própria. Todos esses elementos condicionam tanto as opções disponíveis como o ritmo das mudanças.

Neste sentido, Lamas rejeita a existência de uma fórmula universal que possa ser, simplesmente, importada e aplicada a qualquer instituição.

Segundo o académico, não existe um modelo único de transformação digital, porque cada universidade possui condições, necessidades e prioridades específicas. Entre os factores determinantes, apontou a regulamentação, a cultura institucional, os recursos disponíveis, as infra-estruturas tecnológicas, as competências existentes, as estruturas e processos organizacionais, a coordenação interna e, sobretudo, a liderança. “É importante reflectir sobre o tipo de universidade que se pretende para criar o impacto que se ambiciona; reflectir sobre novas formas de trabalhar, sobre o tipo de serviços e sobre o tipo de relações que se pretende estabelecer com estudantes, docentes, a sociedade e parceiros. Deve-se pensar no que se pode transformar para se chegar lá”, afirmou.

UEM procura transformar infra-estruturas em capacidade institucional

Na abertura do evento, o Vice-Reitor para Administração e Recursos, Prof. Doutor Mohsin Sidat, convergiu com esta perspectiva ao defender que a transformação digital da UEM não deve ser encarada como um conjunto de iniciativas dispersas, mas como uma mudança institucional coordenada, orientada pelo Plano Estratégico e pelo Master Plan de Transformação Digital.

Segundo o Vice-Reitor, a Universidade tem vindo a criar bases tecnológicas e institucionais para sustentar esse processo.

Apontou, entre os exemplos, o recém-criado Centro de Dados, destinado a reforçar a capacidade de armazenamento e processamento de informação, a segurança e a continuidade dos serviços digitais da Universidade; o Laboratório de Robótica e Automação; e a Sala do Futuro, que amplia as possibilidades de experimentação, investigação aplicada e aproximação às escolas secundárias parceiras.

Para Mohsin Sidat, estas infra-estruturas não devem funcionar como iniciativas isoladas. Devem integrar um mesmo ecossistema e colocar a tecnologia ao serviço da formação, da produção científica e da procura de respostas para os problemas do País.

O Vice-Reitor advertiu, contudo, que a disponibilidade de equipamentos, plataformas e infra-estruturas digitais não é suficiente para transformar a educação.

A verdadeira mudança, explicou, ocorre quando a tecnologia produz efeitos concretos na experiência académica: quando uma plataforma reduz barreiras de acesso; quando os recursos digitais tornam a aprendizagem mais acessível; quando as ferramentas tecnológicas ajudam docentes a identificar dificuldades dos estudantes; e, sobretudo, quando estes deixam de ser meros consumidores de tecnologia e passam a utilizá-la para criar conhecimento e desenvolver soluções para problemas concretos.

Esta perspectiva coloca estudantes e docentes no centro da transformação digital e desloca o debate da simples aquisição de tecnologia para a capacidade de a Universidade utilizá-la para melhorar os seus processos fundamentais.

A 6.ª edição do Dia de Ensino com Recurso à Tecnologia foi antecedida por um conjunto de oficinas de produção de conteúdos educativos, realizadas nos dias 11, 13 e 19 de Agosto, envolvendo docentes, investigadores e estudantes.

As actividades abordaram três dimensões consideradas relevantes no actual contexto de transformação do ensino superior: produção de conteúdos interactivos para o ensino, integridade académica na era da Inteligência Artificial e promoção de aulas interactivas através da plataforma Vula.

No total, as oficinas mobilizaram 137 participantes. Destes, 54 participaram nas actividades dedicadas aos conteúdos interactivos, 60 na sessão sobre integridade académica na era da Inteligência Artificial e 23 na oficina sobre utilização da plataforma Vula.

Para o Director do CIUEM, Doutor Luís Neves, a adesão registada demonstra que a comunidade universitária está interessada não apenas no debate conceptual sobre transformação digital, mas também em ferramentas capazes de responder a necessidades concretas do processo de ensino e aprendizagem.

Os números das oficinas constituem, neste sentido, um indicador da procura por espaços de capacitação que permitam aos docentes, investigadores e estudantes experimentar tecnologias, desenvolver conteúdos e compreender as oportunidades e os desafios associados à crescente utilização da Inteligência Artificial no ambiente académico.