
Desafios das Pescarias no País: Moçambique precisa de uma nova maturidade científica e institucional
Moçambique dispõe de um património marinho de enorme riqueza, mas a complexidade crescente das pescarias nacionais exige uma mudança na forma como o país produz conhecimento e gere os seus recursos. O alerta foi lançado pelo Director do Instituto Oceanográfico de Moçambique, Professor Doutor António Houguane, para quem os desafios actuais já não podem ser enfrentados apenas com os modelos tradicionais de gestão do sector.
Segundo o investigador, a realidade das pescarias locais exige cada vez mais maturidade científica e institucional, numa altura em que factores como as alterações climáticas, a degradação dos ecossistemas costeiros, a qualidade da água dos estuários e as dinâmicas socioeconómicas das comunidades piscatórias passaram a influenciar directamente a sustentabilidade dos recursos marinhos.
Para António Houguane, gerir as pescarias deixou de significar apenas regular capturas ou conservar espécies. Exige uma compreensão integrada das relações entre o ambiente, a actividade humana e os processos ecológicos que sustentam os ecossistemas marinhos. “A pesca não existe num vácuo. Ela acontece dentro de um ecossistema complexo e é essa complexidade que deve orientar a forma como gerimos os nossos recursos”, anotou.
Na sua perspectiva, uma gestão eficaz deve abandonar abordagens fragmentadas e adoptar princípios da Abordagem Ecossistémica da Pesca, modelo que procura compatibilizar a utilização sustentável dos recursos com a conservação dos ecossistemas e a melhoria das condições de vida das comunidades que deles dependem.
O responsável defendeu, igualmente, que este novo paradigma deve começar na formação dos futuros profissionais do sector. Por isso, considerou essencial o investimento em currículos académicos capazes de preparar técnicos, investigadores e decisores, para responder aos desafios ambientais, económicos e sociais que hoje caracterizam as pescarias em Moçambique.
Foi precisamente esta reflexão que marcou um workshop promovido, entre os dias 3 e 5 de Agosto, em Quelimane, pelo Centro de Pesquisa e Tecnologia do Mar (CepTMaR) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em parceria com o Instituto Oceanográfico de Moçambique e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).
A iniciativa enquadra-se num pedido do Governo de Moçambique à FAO para o reforço das capacidades nacionais na Abordagem Ecossistémica da Pesca e antecede uma formação destinada a docentes e representantes de instituições do sector, prevista para Outubro.

A UEM desempenha um papel determinante neste processo, através da Escola Superior de Ciências Marinhas e Costeiras de Quelimane (ESCMC), que integra esta abordagem no Mestrado em Pescarias Sustentáveis e servirá de base para a estruturação da futura formação nacional.
Na sessão de encerramento, a Directora Científica da UEM, Professora Doutora Natasha Ribeiro, defendeu que a investigação universitária deve produzir respostas concretas para os desafios do desenvolvimento. “Isso exige da universidade acções adicionais para a materialização da sua terceira missão, a transferência de conhecimento para as comunidades directamente afectadas pelos fenómenos objecto dos vossos estudos”, frisou.
O encontro permitiu harmonizar conteúdos do currículo, identificar necessidades de apoio técnico e definir um roteiro para consolidar a formação nacional em Abordagem Ecossistémica da Pesca, reforçando a articulação entre universidades, instituições públicas e parceiros de desenvolvimento.
