
Chissano desafia UEM a liderar respostas para o desenvolvimento de Moçambique
O antigo Presidente da República de Moçambique, Joaquim Chissano, defendeu que a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) deve assumir um papel central na construção do futuro do país, liderando a produção de conhecimento e de soluções para responder aos grandes desafios contemporâneos, entre os quais a transformação digital, as mudanças climáticas, as dinâmicas demográficas e os conflitos internacionais.
A posição foi apresentada na Terça-feira (30/06), durante a palestra “Um olhar sobre o papel da UEM na construção do Estado moçambicano independente”, realizada no âmbito das celebrações dos 50 anos da atribuição do nome Eduardo Mondlane à Universidade.
Na sua intervenção, Chissano sustentou que a missão histórica da UEM permanece actual, mas exige uma permanente capacidade de reinvenção. Defendeu que a Universidade continue a se afirmar como uma instituição de investigação comprometida com a produção de conhecimento útil, capaz de antecipar problemas, formular respostas inovadoras e contribuir activamente para o desenvolvimento sustentável de Moçambique.
O antigo Chefe de Estado sublinhou que os desafios globais impõem novas responsabilidades às universidades, que devem formar profissionais preparados para um mundo em rápida transformação, reforçar a investigação científica e promover soluções que respondam às necessidades concretas da sociedade.
Independência intelectual como condição para o desenvolvimento
Ao revisitar a história da Instituição, Joaquim Chissano recordou que a transformação da antiga Universidade de Lourenço Marques em Universidade Eduardo Mondlane, em 1976, constituiu muito mais do que uma simples mudança de designação.
Segundo explicou, tratou-se de um acto fundador da República, que integrou a Universidade no projecto nacional de construção do Estado independente, colocando o conhecimento ao serviço do povo moçambicano.
Na sua perspectiva, a UEM desempenhou um papel determinante na consolidação da independência, ao adaptar o conhecimento universal à realidade nacional, formar quadros para os diversos sectores estratégicos e incentivar os moçambicanos a pensar o País a partir da sua própria realidade.
Para Chissano, a independência política apenas se consolida quando acompanhada pela independência intelectual, razão pela qual a Universidade continua a ser um dos principais pilares da soberania nacional.
O legado de Eduardo Mondlane como inspiração para o futuro
Durante a palestra, Joaquim Chissano destacou, igualmente, a visão de Eduardo Chivambo Mondlane, afirmando que a sua grandeza residiu na compreensão de que a libertação nacional não terminava com a conquista da independência política.
Segundo explicou, Mondlane defendia que nenhum sistema pode ser transformado sem antes ser profundamente compreendido, razão pela qual atribuía à educação, à investigação científica e à formação das consciências um papel central no processo de emancipação do povo moçambicano.
“Conhecer o conhecimento do outro é o primeiro passo para construir um conhecimento próprio”, recordou Chissano, acrescentando que, para Mondlane, a luta pela liberdade também se travava nas salas de aula, nos laboratórios, nas bibliotecas e nos centros de investigação. “Por isso, a educação nunca ocupou um lugar acessório no pensamento de Eduardo Mondlane; fazia parte integrante do projecto de libertação nacional”, asseverou.
Reitor defende uma UEM orientada para a ciência, tecnologia e inovação
Na ocasião, o Reitor da UEM, Prof. Doutor Manuel Guilherme Júnior, afirmou que Joaquim Chissano reúne uma autoridade singular para reflectir sobre o percurso da Universidade, por ter acompanhado, directamente, a sua transformação institucional após a independência e integrar o restrito grupo de protagonistas desse momento histórico, para além de ser Doutor Honoris Causa pela Instituição.
O Reitor recordou que, nos primeiros anos da independência, a elevada taxa de analfabetismo e a escassez de quadros qualificados fizeram da formação de recursos humanos a principal missão da UEM.
Sublinhou, contudo, que os desafios actuais exigem uma nova etapa de afirmação institucional, defendendo que a Universidade consolide a sua posição como centro de excelência na produção de conhecimento, ciência, tecnologia e inovação, colocando essas capacidades ao serviço da resolução dos principais problemas do país.
A palestra integrou as celebrações dos 50 anos da atribuição do nome “Eduardo Mondlane” à Universidade e reuniu académicos, investigadores, estudantes e representantes de diversas instituições de ensino superior de Moçambique.
