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Universidade Eduardo Mondlane

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Reitor da UEM defende protagonismo das universidades africanas na construção do conhecimento global

O Reitor da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Prof. Doutor Manuel Guilherme Júnior, defendeu que as universidades africanas devem participar na definição das agendas de investigação, das tecnologias e das soluções que irão moldar o futuro, fortalecendo a sua autonomia científica e estabelecendo parcerias internacionais mais equitativas.

A posição foi apresentada na World Academic Summit 2026, realizada de 29 de Setembro a 1 de Outubro, na Cidade do Cabo, África do Sul, onde integrou o painel de alto nível sobre “Preparação, resiliência e liderança em pesquisa num futuro imprevisível”.

Na sua comunicação, o Reitor sustentou que o futuro do conhecimento global não pode ser construído com as universidades africanas à margem. Para estas instituições, preparar-se para um cenário imprevisível exige capacidade para produzir conhecimento sobre as suas próprias sociedades e contribuir, com esse saber, para responder aos desafios mundiais.

Segundo Manuel Guilherme Júnior, a preparação das universidades africanas deve ir além da adopção da inteligência artificial ou da antecipação de crises geopolíticas. Implica, também, assegurar autonomia institucional, recursos e condições para investigar problemas relevantes para as populações, conciliando a procura da excelência internacional com as necessidades nacionais.

Parcerias que reforcem a autonomia científica

O Reitor reconheceu que a internacionalização tem aproximado instituições, mas advertiu que essa ligação não garante, por si só, equidade. Persistem assimetrias na definição das agendas de investigação, no controlo dos dados, na propriedade intelectual, no financiamento, nas publicações e na liderança dos projectos internacionais.

Para enfrentar essas desigualdades, defendeu a evolução de modelos centrados na transferência de capacidades para relações de partilha e de criação conjunta de conhecimento, nas quais as universidades africanas assumam a liderança da investigação sobre questões do continente.

Como exemplo, destacou a cooperação entre a UEM e a Suécia, que se aproxima de cinco décadas e tem contribuído para a formação de mestres e doutores e para o fortalecimento institucional. Explicou que a parceria está a evoluir do enfoque na formação de doutores para o reforço do ecossistema de investigação, procurando tornar a UEM mais autónoma e sustentável.

Na sua perspectiva, uma parceria bem-sucedida deve desenvolver, progressivamente, a capacidade e a responsabilidade institucional, evitando a dependência permanente. Sublinhou, contudo, que reduzir a dependência não significa enfraquecer a internacionalização, mas construir colaborações assentes em interesses estratégicos mútuos.

Preparação para os desafios sociais e tecnológicos

Para a UEM, identificou cinco dimensões de preparação: científica, institucional, do capital humano, financeira e das parcerias. Entre as prioridades de investigação, apontou as mudanças climáticas, a segurança alimentar e hídrica, a saúde pública, a energia, a transformação digital e a coesão social.

Defendeu, igualmente, sistemas profissionais de gestão da investigação, capazes de administrar financiamentos, propriedade intelectual, transferência de tecnologia e parcerias. Acrescentou que a formação deve preparar as pessoas para aprenderem e se adaptar a novas circunstâncias, enquanto a resiliência institucional exige diversificação das fontes de financiamento.

Sobre a Inteligência Artificial, reconheceu o seu potencial para ampliar o acesso ao conhecimento e fortalecer a investigação. Advertiu, porém, que a tecnologia não deve aprofundar desigualdades, criar novas dependências ou substituir o juízo académico. Nesse sentido, destacou o pluralismo linguístico e a inclusão das línguas africanas no desenvolvimento e na utilização da IA.

Conhecimento como motor do desenvolvimento

Num contexto de redução do financiamento das universidades, o Reitor defendeu que estas instituições devem reforçar o seu papel como produtoras de conhecimento capaz de impulsionar a economia. Apontou a transição energética, os recursos naturais, a adaptação climática, os sistemas alimentares e marinhos como áreas em que Moçambique pode assumir uma posição de parceiro estratégico no cenário global.

Alertou ainda para o risco de substituir a dependência de doadores pela dependência de investidores, comprometendo a autonomia na definição das prioridades de investigação.

Organizada pela Times Higher Education, a cimeira realizou-se, pela primeira vez, no continente africano, sob o lema “Conhecimento, justiça e futuros: as universidades na era da Inteligência Artificial”, reunindo líderes do ensino superior, investigadores e especialistas em políticas públicas.