
Salim Valá defende coabitação entre as ciências exactas e humanas
O ministro da Planificação e Desenvolvimento, Doutor Salim Valá, afirmou que ainda persiste um fosso entre a cultura científica e a cultura humanista, pelo que o desafio do presente século não reside em perguntar qual das duas é superior, mas em saber como fazer com que ambas dialoguem entre si. Segundo o governante, os problemas reais não respeitam as fronteiras artificiais das disciplinas académicas.
Salim Valá falava esta Quinta-feira (17/09), na Faculdade de Letras e Ciências Sociais, onde proferiu a palestra inaugural das Jornadas Científicas, subordinada ao tema “As Ciências Sociais e Humanas e o Desenvolvimento de Moçambique”.
Para o governante, a grande verdade é que as mudanças climáticas não são apenas uma questão climatológica; a inteligência artificial não é exclusivamente uma questão informática; a transição energética não se limita à engenharia; a segurança alimentar não é somente um problema da agricultura; e a urbanização não é apenas um assunto da arquitectura.
Segundo ele, todos estes problemas são, simultaneamente, científicos, tecnológicos, sociais, institucionais, comportamentais, territoriais e culturais. “Podemos construir um algoritmo capaz de optimizar a distribuição de recursos, mas será essa distribuição justa?”, questionou.
No seu entender, quanto mais tecnológica se torna uma sociedade, maior é a necessidade das ciências sociais e humanas. “Podemos automatizar uma fábrica, mas que empregos aparecerão? Quantos empregos serão criados?”, reflectiu.
Valá defende que Moçambique deve direccionar a sua formação para as chamadas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), pois o país precisa de mais engenheiros, matemáticos, informáticos, agrónomos, geólogos, especialistas em energia, cientistas de dados, investigadores em biotecnologia e profissionais capazes de construir infra-estruturas, desenvolver a indústria, aumentar a produtividade e dominar as tecnologias que estão a alterar a forma de vida.
Todavia, admite que seria um erro transformar essa necessidade numa escolha entre as duas áreas, uma vez que não se pode escolher entre sociólogos e engenheiros, entre inteligência artificial e filosofia, ou entre ciência de dados e antropologia.
Para o dirigente, as ciências sociais não são simplesmente um complemento humanizador das ciências exactas. Reduzi-las a essa condição seria diminuir a sua natureza científica, uma vez que também formulam hipóteses, produzem evidências, trabalham com dados, medem, comparam, procuram estabelecer relações de causalidade e testam explicações.
Na sua intervenção, Salim Valá destacou ainda que o desenvolvimento, embora tenha uma dimensão económica incontornável, não pode ser compreendido apenas nessa perspectiva. Segundo explicou, as ciências sociais estudam um dos sistemas mais complexos que existem: o dos seres humanos, que vivem com interesses, memória, cultura, expectativas, valores e relações de poder e que, sobretudo, são capazes de aprender e modificar o próprio sistema que o investigador procura compreender.
