
Desigualdades comprometem educação nos Países do Sul Global
Defende investigador brasileiro, Pedro de Bicalho
Países do Sul Global, como Moçambique e o Brasil, embora tenham passado por profundas transformações na área da educação, marcadas pela expansão e melhoria do acesso, continuam a registar desigualdades e crises sociais que comprometem o bem-estar da sociedade, sobretudo o desenvolvimento infantil.
A tese foi defendida esta Quarta-feira (16/09) pelo investigador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Prof. Doutor Pedro de Bicalho, durante a palestra inaugural do V Encontro Nacional de Pesquisa em Educação, IV Encontro Nacional de Pesquisa em Psicologia e do III Simpósio de Desenvolvimento e Educação de Infância, subordinada ao tema “Percurso Histórico, Social e Cultural da Educação, Psicologia e Desenvolvimento Infantil no Sul Global”.
O palestrante destacou que os conflitos, as mudanças climáticas e a pandemia da COVID-19 agravaram a crise de aprendizagem e afectaram os direitos das crianças, principalmente nas zonas rurais.
“Estudos mostram que desigualdades de género, classe, território e etnia continuam determinando trajectórias educacionais, com impactos cumulativos ao longo da vida”, disse.
Explicou que os países do Sul Global têm 33 por cento de crianças fora da escola, uma situação crítica, principalmente quando comparada com a dos países do Norte Global, que registam apenas três por cento.
“A África Subsaariana domina as faixas mais altas, a América Latina e o Médio Oriente ocupam a faixa intermédia, enquanto a Europa e a América do Norte ocupam as faixas mais baixas”, afirmou.
Pedro de Bicalho afirmou que a solução para reduzir as desigualdades passa pela produção de conhecimentos próprios, situados e que dialoguem directamente com a sociedade local, o que ainda é difícil num contexto em que os modelos de ensino e de ciência reflectem realidades do Ocidente.
“Precisamos de lembrar quem mata a fome e quem a inventou. Precisamos de produzir algo novo e diferente, porque a aprendizagem deve ser vista como criação de desvios, brechas e deslocamentos”, alertou.
Acrescentou que os investigadores locais devem produzir currículos que incluam experiências historicamente esquecidas e criar espaços de supervisão que problematizem a norma.
“Devemos trabalhar com narrativas, histórias de vida, territórios e acolher conflitos como parte do processo de aprendizagem”, defendeu.
Na ocasião, o Vice-Reitor da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Doutor Mohsin Sidat, disse que o evento, organizado pela Faculdade de Educação da UEM, visa garantir a formação de profissionais de educação e psicologia, a realização de estudos científicos e a prestação de serviços específicos que contribuam para a melhoria das práticas nas comunidades, organizações e instituições educativas, bem como para a formulação de políticas educativas.
“Encoraja-se, portanto, a FACED a prosseguir com estas acções, que a referenciarão como uma Unidade Académica modelo em investigação e extensão, nos contextos nacional, regional e internacional, nas áreas de Educação e Psicologia.”
Acrescentou que o evento decorre em Setembro, mês especial em diversas sociedades, uma vez que desperta para a necessidade de prevenção do suicídio, um dos problemas de saúde pública.
“Neste contexto, a troca de experiências entre docentes, pesquisadores, estudantes e profissionais de Educação, Psicologia e Desenvolvimento e Educação de Infância, movimentos sociais, populares e a comunidade universitária em geral é vista como fundamental na construção de uma sociedade equilibrada e livre de quaisquer factores prejudiciais à saúde mental, particularmente os que podem culminar com o suicídio”, disse.
O encontro decorre sob o lema “Trajectórias e transformações: saberes e práticas em Educação, Psicologia e Primeira Infância – Celebrando os 50 anos da atribuição do nome Eduardo Mondlane”.
A iniciativa pretende promover a partilha, reflexão e debate em torno dos resultados de pesquisas e trabalhos de extensão realizados por docentes, investigadores e estudantes, tanto a nível nacional como internacional.
