Universidade Eduardo Mondlane

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UEM celebra centenário do Professor José Branco Neves

A Universidade Eduardo Mondlane (UEM) celebrou, há dias, os 100 anos do Professor José Branco Neves, numa homenagem que encheu a Sala Magna da Faculdade de Medicina, com colegas, familiares, antigos estudantes e admiradores. A cerimónia evocou a vida e a obra de um académico cuja marca ultrapassa a medicina para tocar a formação de gerações e o desenvolvimento do sector da saúde em Moçambique.

Mais do que comemorar uma data, o momento serviu para exaltar a dimensão humana, científica e pedagógica de um homem considerado pioneiro, mentor e referência nacional. Branco Neves foi o primeiro médico, em Moçambique, a realizar cirurgias delicadas da laringe, incluindo a remoção de amígdalas, num tempo em que tais procedimentos despertavam receio e exigiam destreza técnica invulgar. A sua ousadia científica abriu caminhos que transformaram a prática clínica no país.

“Uma vida que se mede pelo legado”

Para o Director da Faculdade de Medicina, Professor Doutor Jahit Sacarlal, o centenário de Branco Neves simboliza uma vida que se mede “não em anos, mas em legado”. Sacarlal destacou o impacto profundo do Professor na formação de quadros da saúde, na construção institucional da medicina moçambicana e na consolidação de uma cultura académica assente no rigor e na responsabilidade.

Trata-se de uma existência que floresceu em outros, que formou mentes, fortaleceu instituições e inspirou caminhos. Muitos dos que hoje ensinam, investigam, tratam e dirigem estruturas de saúde são frutos directos do seu exemplo, destacou.

Segundo Sacarlal, o homenageado era reconhecido pela sua integridade, sentido de justiça, ética profissional e visão progressista. “Celebrar os 100 anos é também celebrar a eternidade das suas ideias. O Professor ensinou-nos a não nos confortarmos apenas com os títulos e das medalhas recebidas, mas da capacidade de inspirar outros a continuarem o caminho”,

Mestre rigoroso, espírito crítico e humor sereno

O antigo Vice-Ministro da Saúde, Prof. Doutor  Leopoldo da Costa, descreveu Branco Neves como um mestre raro, capaz de aliar rigor científico, sabedoria prática e grande humildade intelectual. Neves era um Professor que ensinava a pensar e não a decorar. Um homem de espírito crítico, disciplinado, mas sempre com aquele ‘cheirinho de humor’ que tornava a aprendizagem leve e inesquecível.

Da Costa recordou que as suas licções iam muito além das técnicas médicas: Branco Neves partilhava a sua sabedoria processada ao longo dos intensos estudos e experiências académicas, ensinando sempre o saber estar e a importância do não se fechar em modelos e fórmulas dogmáticas, mas sim, com muita humildade e mente aberta dispor-se a aprender outras experiências.

 

Debates intensos pelo desenvolvimento da saúde

O primeiro Ministro da Saúde de Moçambique Independente, Dr. Hélder Martins, também prestou homenagem ao mestre, lembrando as várias discussões que tiveram ao longo dos anos sobre o país, a medicina e os desafios da formação médica. “Porque eu como ministro da saúde sempre apadrinhei a Faculdade de Medicina e, até, dei assistência financeira à Faculdade e, na altura, tínhamos muitas carências de quadros, e lembro-me que Professor Branco Neves leccionava em muitas disciplinas, incluindo a área de anatomia”, recordou.

Gratidão em nome da família

Em nome da família, a Prof.ª Doutora Victória Branco Neves, esposa do homenageado, agradeceu à UEM e à Faculdade de Medicina pela iniciativa, sublinhando que a vida do Professor foi dedicada, sem reservas, ao ensino, à investigação e ao país que escolheu como seu lar.

O centenário contou com discursos emocionados, exposição da produção científica do Professor Branco Neves e o tradicional corte do bolo. Diversas personalidades da academia, saúde e vida política marcaram presença, testemunhando a dimensão do legado do professor.

Natural de Portugal, mas moçambicano por escolha e afecto, José Branco Neves tornou-se um dos pilares da medicina no país, pioneiro em cirurgias otorrinolaringológicas e defensor incansável da ética, da humanização dos cuidados e do valor transformador da educação.

O seu exemplo continua a inspirar gerações de médicos e académicos, consolidando-se como uma das figuras maiores da história da UEM e da saúde em Moçambique.