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A melhoria da qualidade do ensino depende da qualidade dos docentes, defende a Dr.ª Eugénia Cossa

eugeniafacedA Directora da Faculdade de Educação, Prof.ª Doutora Eugénia Cossa, disse há dias, que a melhoria da qualidade do ensino nas Instituições do Ensino Superior em Moçambique passa pela formação dos docentes.

Falando em entrevista à nossa reportagem, apontou os principais factores determinantes para os problemas da qualidade e abordou a capacitação aos docentes desenvolvida pelo Centro de Desenvolvimento Académico (CDA), unidade adstrita à sua faculdade. Leia a seguir a entrevista.

BIUEM: Quando é que foi criado o Centro de Desenvolvimento Académico (CDA)?

Dr.ª Eugénia Cossa (Dr. EC): O Centro de Desenvolvimento Académico (CDA) é resultado de um projecto que surgiu em 1989 e que foi até ao ano 2000, designado por STADEP (Staff development programe = Programa de Desenvolvimento do Pessoal) e que tinha como função principal capacitar os docentes da UEM em matérias pedagógicas. Na altura funcionava com poucos módulos, que tinham a ver com métodos de estudo; de ensino e aprendizagem; métodos de avaliação; como escrever projectos entre outros. Com a reabertura da Faculdade de Educação em 2001, o programa STADEP foi institucionalizado e passou a fazer parte integrante da Faculdade com o nome de CDA. Em suma, o CDA é resultado de um programa que já existia com os mesmos objectivos.

BIUEM: Qual era o principal objectivo?

Dr.ª EC: Este programa tinha como principal objectivo melhorar a prática pedagógica dos docentes. Uma pessoa para ensinar outras, tem que aprender a ensinar. Tem que ter conhecimentos sobre a psicopedagógica, isto é, para além de saber como se ensina tem que saber estar e ser na sala de aulas. No contexto do nosso país muitos dos que abraçaram a carreira de docência foram formados academicamente, isto é, dotados somente de conhecimento científico e não como se ensina, que é a pedagogia. Na UEM temos muitos colegas que entraram como assistentes estagiários, sem formação pedagógica para serem professores. Outro objectivo do CDA é de apoiar, aconselhar e orientar os estudantes que entram para frequentar os cursos da UEM. Isto porque são de diversas proveniências do país e alguns estudaram em boas escolas, com laboratórios, com condições mínimas, mas em contrapartida há aqueles que estudaram em escolas sem as mínimas condições e que nunca viram sequer um laboratório equipado ou mesmo um computador sendo que o vê aqui pela primeira vez. Sendo assim, há necessidade de fazer-se um acompanhamento à esses estudantes, orientando-os para a nova vida académica, e no caso, a de um estudante universitário. Para isso temos uma área que se chama secção de apoio estudantil adstrita ao CDA.

BIUEM: Até que ponto o CDA pode ter papel na melhoria da qualidade de ensino, numa altura em que é muito questionada e diz-se ser resultante da baixa qualidade dos docentes?

Dr. EC: O CDA tem muita importância neste sentido. A UEM sempre preocupou-se com a formação dos seus docentes no sentido de melhorar a sua qualidade, em termos de práticas pedagógicas.

Os assistentes-estagiários são os estudantes que saem da carteira, que em condições normais, logo depois da graduação em licenciatura, não poderiam entrar na sala de aulas para ensinar. Deveriam, em primeiro lugar, passar por um processo de capacitação psicopedagógica ou serem dotados de habilidades de como se ensina, porque pode ter uma boa bagagem científica e não saber transmitir esse conhecimento aos estudantes, porque não foi preparado para isso.

                                                                                                                                                 

BIUEM: Sabe-se que há muitos casos de assistentes que não estão no processo da formação pelo CDA mas que estão a dar aulas. De quem é a responsabilidade?

Dr. EC: A responsabilidade é da UEM de um modo geral, mas é também do próprio docente. O docente que pretende seguir a carreira docente deve, em primeira instância, ter a preocupação de se formar com regularidade, isto é, auto capacitar-se. Tem que participar em acções de actualização, não só na componente pedagógica mas também do próprio conhecimento a transmitir.

A responsabilidade é também das faculdades e dos departamentos, pois devem observar os instrumentos normativos que regulam as acções da carreira docente, que definem as obrigações de um assistente estagiário, de um Professor Doutor e de uma pessoa que já não é assistente universitário.

O que acontece é que há certos assistentes estagiários que ao serem contratados dão aulas sem a presença do regente, contrariando o regulamento que diz que ele não pode dar aulas teóricas mas sim aulas práticas sob orientação do professor regente. Este é um assunto que a UEM, através das suas faculdades e departamentos, deve prestar a devida atenção.

BIUEM: Por quanto tempo devia ser assim?

Dr. EC: Quando eu entrei na UEM como assistente estagiário, em 1993, já vinha dando aulas no ensino secundário, mas tive que cumprir com as normas frequentando os cursos de STADEP e na altura eram 3 anos que se ficavam como assistente estagiário. Agora são 2 anos. O regulamento da carreira docente diz que o assistente estagiário para mudar de categoria deve pelo menos frequentar um a dois módulos que o CDA oferece. Mas respondendo à pergunta, acho que é urgente que se tome medidas para que os professores regentes cumpram com as suas obrigações. Há que fazer valer os regulamentos sobre os deveres e obrigações de um docente universitário, sobretudo o da UEM, se pretende-se melhorar a qualidade de ensino e do graduado.

BIUEM: Há informação segundo a qual o CDA é pouco frequentado. O que está a acontecer? Será falta de informação?

Dr. EC: É problema de cultura académica. De resistência a mudanças. Quando alguém abraça a carreira de docência tem que primar por uma cultura académica plausível. Deve se preocupar com a sua formação independentemente do seu grau académico. Deve estar constantemente a actualizar-se. Acontece que há uma tendência de se olhar para o CDA como estivesse desprovido de pessoas competentes para ministrar cursos de formação pedagógica. O CDA é um órgão, ou seja, uma unidade dentro da Faculdade de Educação e tem como papel coordenar a formação pedagógica, trazendo para tal pessoas com formação específica numa determinada área de formação.

É verdade que assiste-se a uma fraca adesão. Por exemplo, em 2012 o CDA formou cerca de 230 docentes, num universo de um pouco mais de 1600. Mas pensamos nós que com o novo plano vamos responder às expectativas dos docentes, pois este veio para atender as diferentes necessidades em termos de conteúdos específicos.

BIUEM: O que pretende o novo plano de formação?

Dr. EC: Continuar a promover a formação psicopedagógica dos docentes da UEM. É importante notar que não desvaloriza de forma alguma o trabalho que era desenvolvido pelo CDA antes da sua existência. Pelo contrário, veio enriquecer o trabalho feito pelo CDA. Portanto, este plano surge no âmbito das responsabilidades atribuídas à Universidade Eduardo Mondlane e a Universidade Pedagógica pelo Ministério da Educação (MINED), para responder ao Plano de Formação dos Professores do Ensino Superior (2012-2015) e ao Plano Estratégico do MINED que vai até 2016, que entrou em vigor em 2012. Foram seleccionadas estas duas universidades públicas por se achar que havia necessidade de melhorar a qualidade do Ensino Superior. Estas acções estão previstas no nosso plano estratégico, nos objectivos número 3 e 4 e no plano do MINED.

Para a elaboração deste plano, o Magnífico Reitor nomeou uma comissão multissectorial que foi coordenada pela Faculdade de Educação na pessoa da sua directora, em 2011, sob supervisão da Vice-Reitora académica. Para o sucesso deste novo plano foi feito um “Estudo de Reflexão sobre a Formação Psicopedagógica dos Docentes do Ensino Superior" e apresentado aos órgãos colegiais da UEM e ficou a recomendação de que havia necessidade de desenhar um plano de formação que atenda às necessidades específicas de todos os docentes do ensino superior, com particular destaque para a nossa universidade. Essa formação é extensiva aos docentes universitários de outras universidades à luz da implementação do Plano de Formação de Professores do Ensino Superior (2012-2015) e do Plano Estratégico de Educação (2012-2016) sob responsabilidade do MINED.

BIUEM: Essa formação já está em curso?

Dr. EC: Sim. A formação já está a acontecer.

BIUEM: Que avaliação faz?

Dra EC: Estamos num bom ritmo. De Março para cá já capacitamos docentes em 5 módulos. Porém, gostaríamos que fosse muito mais. Constatamos que o nível de adesão ainda é muito baixo, não obstante muitos docentes não terem formação pedagógica. Dos 299 docentes formados em 3 meses, isto é, de Março a Agosto, 75 são de outras instituições do ensino superior. É preciso que se divulgue ainda mais e o Centro de Comunicação e Marketing (CECOMA) tem o papel importante na implementação e monitoria do novo plano de formação. Tem que fazer uma maior sensibilização ao nível das faculdades e escolas. O novo plano de formação é obrigatório, segundo o regulamento da carreira docente.

BIUEM: De hoje em diante, que desafios para o CDA?

Dr. EC: Um dos principais desafios é a adopção do ensino à distância. As capacitações e os módulos que oferecemos devem ser também na modalidade de ensino à distância. Nós temos que responder às necessidades do país, não formamos só os docentes da UEM mas também de outras instituições de ensino superior. Além de presencial, os cursos oferecidos pelo CDA devem ser oferecidos também nas modalidades semi-presencial e à distância. Outro desafio que se impõe reside nas acções de sensibilização dos docentes no sentido de encarar o novo plano de formação psicopedagógica como se fosse deles. Por fim temos o desafio que tem a ver com recursos financeiros, pois a implementação efectiva deste plano requer a disponibilização dos recursos financeiros e tecnológicos à altura.