
Género e Saúde Mental na UEM: Pressão Académica e Desigualdades em Debate
O clima institucional, a segurança psicológica nas salas de aula, a relação entre docentes e estudantes, os modelos de avaliação e a crescente pressão por desempenho são apontados como factores determinantes para a saúde mental no ensino superior. As conclusões saíram da Mesa Redonda subordinada ao tema “Género e Saúde Mental: Desafios no Processo de Ensino e Aprendizagem”, promovida pelo Centro de Coordenação dos Assuntos de Género (CeCAGe), no âmbito das celebrações do Mês da Mulher, na Universidade Eduardo Mondlane.
As oradoras defendem que o ambiente académico pode assumir um duplo papel – factor de protecção ou de risco – dependendo das condições institucionais e sociais em que o processo de ensino e aprendizagem ocorre. Entre os principais factores de risco, destacam-se a pressão excessiva, o medo de errar, a competição extrema e práticas de discriminação. Em contrapartida, elementos como o apoio social, a participação activa, a confiança e o sentido de pertença foram identificados como fundamentais para a promoção do bem-estar.
O risco da Síndrome do impostor e a chamada “dupla jornada”
A Prof.ª Doutora Tufária Mussá, docente e investigadora da Faculdade de Medicina, apontou desafios concretos enfrentados pelos estudantes, nomeadamente ansiedade académica, procrastinação, pressão por resultados, dificuldades de adaptação social e constrangimentos financeiros.
Segundo a académica, estas dificuldades assumem também uma dimensão de género, evidenciada por expectativas sociais diferenciadas entre homens e mulheres, situações de assédio ou discriminação, síndrome do impostor e a chamada “dupla jornada” enfrentada por muitas estudantes, que conciliam os estudos com responsabilidades familiares.
Esses factores, alertou, podem resultar em consequências graves, como redução da concentração, baixo rendimento académico, abandono escolar, transtornos mentais, distúrbios alimentares, violência e, em casos extremos, suicídio.
Como resposta, a investigadora defendeu a adopção de medidas estruturantes, entre as quais a promoção da literacia em saúde mental, a criação de ambientes psicologicamente seguros, o reforço dos serviços de apoio psicológico e a implementação de pedagogias inclusivas e sensíveis às questões de género.
Por sua vez, a Doutora Lénia Mapelane, docente da Faculdade de Educação, sublinhou que as relações sociais continuam a ser influenciadas por normas culturais patriarcais, que estruturam desigualdades de género e impactam directamente o bem-estar psicológico no contexto académico.
Neste sentido, propõe a integração sistemática das questões de género e saúde mental nos processos de gestão académica, investigação, extensão e administração universitária, bem como o desenvolvimento de estratégias institucionais de prevenção e protecção.
Em representação dos estudantes, Raquel Januário, do curso de Sociologia, destacou que a saúde mental no contexto universitário está associada à capacidade de lidar com pressões académicas, estabelecer relações saudáveis e sentir-se respeitado, apoiado e incluído no ambiente de aprendizagem.
De forma consensual, as oradoras defenderam que uma educação de qualidade vai além da transmissão de conhecimento, exigindo ambientes académicos humanos, inclusivos e emocionalmente seguros.
Desigualdades de género impactam no desempenho académico
Na abertura do evento, o Reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Prof. Doutor Manuel Guilherme Júnior, sublinhou que o processo educativo é profundamente influenciado por factores sociais, emocionais e psicológicos.
O dirigente destacou que problemáticas como desigualdades de género, estereótipos, violência baseada no género, sobrecarga académica, ansiedade e depressão têm impacto directo no desempenho académico e no bem-estar da comunidade universitária.
Na ocasião, reafirmou o compromisso da instituição com a promoção da equidade de género, respeito pela diversidade e fortalecimento da saúde mental, através da implementação de políticas inclusivas, criação de ambientes seguros e incentivo ao debate aberto sobre temas historicamente marcados pelo estigma.
A mesa-redonda reuniu membros da comunidade universitária e teve como objectivo reflectir sobre a intersecção entre género e saúde mental no ensino superior, promovendo a partilha de experiências, a identificação de desafios e a definição de caminhos para integrar estas dimensões nas práticas pedagógicas, políticas institucionais e estratégias de apoio aos estudantes
