
Simpósio sobre Mudanças Climáticas: Fortalecer a casa por dentro para atrair grandes financiamentos
– apela Paul Desanker
O gestor da Divisão de Adaptação do Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), Prof. Doutor Paul V. Desanker, defende que países de baixo rendimento, como Moçambique, devem desenvolver capacidades internas para mobilizar financiamentos de grande escala, de modo a fazer face aos desafios das mudanças climáticas. Para o efeito, considera fundamental o reforço institucional, através da formação de quadros especializados e capacitados para responder às exigências dos processos de acesso aos fundos internacionais competitivos.
O especialista falava hoje na Universidade Eduardo Mondlane (UEM) durante o Simpósio sobre Adaptação e Resiliência Climáticas, subordinado ao tema “Da investigação à acção climática: comunicando e construindo a resiliência comunitária”, no âmbito da sua apresentação intitulada “Do enfrentamento à resiliência: a adaptação no passado, no presente e no futuro”.
Na ocasião, afirmou que existe um movimento global que trabalha de forma concertada para enfrentar os desafios das mudanças climáticas. Contudo, os resultados alcançados ainda não são suficientes para produzir os efeitos esperados.
Ao descrever o ecossistema internacional de apoio a projectos na área climática, destacou as sub-janelas de investimento destinadas à mitigação e à adaptação, abrangendo seis sectores temáticos, nomeadamente: agricultura e segurança alimentar; segurança hídrica; informação climática e sistemas de alerta precoce; transportes e infra-estruturas ecológicas; energia ecológica e eficiência energética; e finanças ecológicas.
O especialista salientou, igualmente, a necessidade de os projectos terem em conta as prioridades regionais e nacionais do sector, bem como de promoverem parcerias entre países e instituições da região para a implementação de iniciativas conjuntas.
Eventos climáticos extremos evidenciam a elevada vulnerabilidade do país
Na sessão de abertura, o Ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Doutor Mário Albino, afirmou que a exposição de Moçambique aos eventos climáticos extremos evidencia a elevada vulnerabilidade do país e a sua capacidade limitada de resposta nos sectores económico, agrícola, pecuário, pesqueiro e florestal, bem como nos serviços complementares ao longo das respectivas cadeias de valor.
Segundo o governante, entre 2000 e 2025, Moçambique registou mais de 75 eventos climáticos extremos, que provocaram perdas económicas superiores a 4,5 mil milhões de dólares. Acrescentou que, no presente ano, as cheias e inundações afectaram cerca de 170 mil agregados familiares nas regiões Centro e Sul do país, com perdas económicas estimadas em 647 milhões de dólares.
Referiu que o Governo de Moçambique considera as mudanças climáticas uma prioridade, integrando esta questão em vários instrumentos de planificação e desenvolvimento.
Na sua perspectiva, não é possível falar de resiliência climática sem investimentos robustos em infra-estruturas. Destacou, neste contexto, os desafios relacionados com o acesso ao financiamento climático, que continua a ser concedido, em muitos casos, sob a forma de empréstimos, bem como a necessidade de desenvolver o capital humano e promover a formação em soluções sustentáveis e resilientes às mudanças climáticas.
O governante apontou ainda a importância de investir na construção de barragens e em sistemas de armazenamento de água, no desenvolvimento de sistemas de regadio, na criação de áreas verdes e na construção e reabilitação de vias de acesso resilientes aos eventos climáticos extremos.
Para Mário Albino, o conhecimento científico não deve ficar circunscrito às salas de aula e aos laboratórios, devendo ser transformado em informação acessível, útil e prática para apoiar os decisores políticos.
“Construir a resiliência climática é um dever colectivo e uma condição para não deixar ninguém para trás”, afirmou.
Adaptação às mudanças climáticas exige uma forte cooperação internacional
Por sua vez, o Reitor da UEM, Prof. Doutor Manuel Guilherme Júnior, afirmou que a adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento exige uma forte cooperação internacional. Segundo o Reitor, Moçambique precisa não apenas de financiamento climático justo, mas, sobretudo, de parcerias estratégicas para a transferência de tecnologia e o reforço das capacidades nacionais.
Entre as áreas prioritárias, destacou as tecnologias de monitoria e aviso prévio, as energias renováveis, a agricultura de conservação e as técnicas avançadas de restauração de ecossistemas costeiros, marinhos e terrestres.
O gestor reiterou a disponibilidade da instituição que dirige para continuar a ser um parceiro idóneo e credível na recepção, adaptação e co-criação de tecnologias, assegurando que estas respondam às necessidades reais do país.
A investigação desenvolvida na UEM visa dotar o Estado moçambicano de evidências sólidas para a tomada de decisões. Neste sentido, o reitor destacou o alinhamento do trabalho científico da instituição com os instrumentos nacionais de gestão e desenvolvimento, nomeadamente a Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE), que promove o crescimento sustentável e inclusivo, o Plano Nacional de Adaptação (NAP) e a Estratégia Nacional de Gestão de Mudanças Climáticas (ENAMMC).
