
Sem valorizar a identidade do seu povo: “Nenhuma nação se afirma apenas com gás, petróleo ou outras riquezas naturais”

As artes e a cultura foram determinantes para a construção da identidade nacional nos primeiros anos da independência de Moçambique e continuam a ser um dos pilares do desenvolvimento do país.
A reflexão foi partilhada por artistas moçambicanos durante a palestra “Memórias da Nossa Independência com os Nossos Artistas”, realizada Terça-feira (24/06), na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), no âmbito das celebrações dos 50 anos da Independência Nacional.
Um dos momentos mais marcantes do encontro foi protagonizado pelo actor Carlos Gilberto Mendes, uma das referências do teatro moçambicano, que defendeu uma maior valorização da cultura como elemento estratégico para a afirmação do país. “É um cenário completamente diferente da realidade actual. É preciso compreender que nenhuma nação se afirma apenas com gás, petróleo ou outras riquezas naturais, sem valorizar a identidade do seu povo”,
Segundo o actor, nos anos que se seguiram à independência, a cultura ocupava um lugar central na estratégia de construção da nação. Grupos de teatro, música e dança percorriam o país e representavam Moçambique além-fronteiras, divulgando a diversidade cultural e reforçando o sentimento de pertença entre os moçambicanos.
Na sua opinião, esse reconhecimento perdeu espaço ao longo dos anos, apesar de a cultura continuar a desempenhar um papel essencial na projecção da imagem do país.
Recorrendo ao exemplo do Brasil, Gilberto Mendes observou que a notoriedade internacional daquele país resulta, em grande medida, da força da sua produção cultural. “Através da sua cultura, do carnaval, do futebol e da gastronomia, desperta-se um grande interesse em conhecer o país”, destacou.
A mesma visão foi partilhada pelo actor João Manja, que recordou o ambiente vivido nos primeiros anos da independência, quando as artes mobilizavam a sociedade em torno de um projecto colectivo de construção nacional. “Uma das marcas da independência, que carrego até hoje, é a união. As pessoas estavam mais unidas em torno de uma mesma causa: a revolução e a conquista da identidade enquanto moçambicanos”, acrescentou.
Também a cantora Rosália Mboa evocou a independência como um momento de recuperação da dignidade e da consciência colectiva, lembrando que a conquista da liberdade permitiu aos moçambicanos reconhecerem-se como protagonistas do seu próprio destino. “Percebi que, afinal de contas, temos uma identidade própria e que podemos, unidos, definir um futuro próspero”, afirmou.
Para a artista, a independência continua a representar liberdade, unidade e autodeterminação, valores que permanecem actuais cinquenta anos depois da proclamação da independência nacional.
Promovida pela Escola de Comunicação e Artes da UEM, a palestra integrou o programa das comemorações do 25 de Junho e proporcionou um diálogo intergeracional sobre o papel das artes, da cultura e da memória colectiva na construção da identidade nacional e na preservação dos valores que marcaram a luta pela independência.
