
Para desenvolvimento de áfrica: Oradores propõem soberania científica
Investigadores defendem que as perspectivas sobre o desenvolvimento de África demostram que o futuro do continente está estreitamente ligado à sua capacidade de alcançar a soberania científica e epistemológica.
Explicaram que a África não poderá aspirar uma real e efectiva independência económica, política ou social, enquanto continuar a ser consumidora passiva de teorias e soluções pensadas e desenhadas fora do seu espaço geográfico e cultural.
Estas ideias foram defendidas pelos oradores do painel que tinha como tema “Perspectivas sobre o Desenvolvimento de Africa”, no âmbito do Colóquio alusivo às celebrações do Dia de África.
Na ocasião, o Director da Faculdade de Filosofia, Prof. Doutor José Blaunde, anotou que as economias de maior parte de países africanos são fracas, visto que continuam dependentes da exportação de matérias-primas e recursos naturais não processados, com destaque para o petróleo e produtos agrícolas. “Esta situação deixa o continente vulnerável ao choque de preços de mercado e, como se não bastasse, a nossa indústria é tímida, não consegue responder à demanda”, argumentou.
Nestes moldes, sublinha Blaunde, África actua, igualmente, como fornecedora de cérebros que produzem para o benefício externo. “Este cenário impede a fixação de laboratórios de ponta no continente e gera uma fuga de cérebros institucionalizados e, consequentemente, a investigação científica nas universidades africanas acaba respondendo aos interesses dos financiadores em detrimento das nossas preocupações”.
Blaunde explicou que este conhecimento perpetua o diagnóstico fatalista que coloca o continente numa posição de eterno atraso. “Para contrapor esta tendência de subordinação intelectual, urge uma reforma radical e profunda nas instituições do ensino superior”.
Destacou que é preciso se valorizar o conhecimento produzido a partir de uma realidade africana e, desta forma, o ensino superior e a pesquisa aplicada poderão contribuir para o desenvolvimento de África.
A sustentabilidade e a coesão social nas nações africanas exigem, segundo a fonte, uma ciência produzida na academia que seja disponibilizada nas bibliotecas e em outros corredores de consumo científicos. “Estamos a falar da investigação científica direcionada para a saúde, para os problemas sociais, segurança alimentar e para todas as dimensões em que o ser humano se enquadra”, disse.
Acrescentou que o intelectualismo africano deve, a partir da sua realidade, trazer um conhecimento que tem impacto sobre a vida das pessoas. “Citando Brazão Mazula, digo que a universidade deve ter uma incontornável responsabilidade social, gerar pensamento crítico rigoroso que funciona como uma bússola ética para as instituições públicas e deve servir de alicerce ético e moral para a formação de políticas públicas, assegurando o crescimento económico que se traduz no desenvolvimento humanístico e sustentável”, afirmou.
Por seu turno, o Director do CEA, Prof. Doutor Carlos Arnaldo, afirmou que o continente precisa de uma governação demográfica eficaz, explicando que, ao longo da história mundial, vários países souberam adaptar as suas políticas económicas e sociais às transformações demográficas necessárias para o benefício da economia e bem-estar da sociedade. “Defendo que África precisa de fazer o mesmo urgentemente. Quando falo de uma governação demográfica eficaz refiro-me à capacidade de formular políticas públicas que respondam e induzam as transformações demográficas e que delas se retire dividendos concretos para o desenvolvimento e bem-estar social”, acrescentou.
Alertou que, para a concretização deste objectivo, é necessário investir numa educação de qualidade, em saúde sexual reprodutiva, emprego, planeamento urbano e em igualdade de género. “Significa integrar a dimensão demográfica nas estratégias nacionais de desenvolvimento de forma sistemática e de longo prazo”.