
Investir em ciência é investir no futuro de Moçambique
– Defende Reitor da UEM
O Reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Prof. Doutor Manuel Guilherme Júnior, defende que o fortalecimento da investigação científica é essencial para o desenvolvimento sustentável de Moçambique.
Embora reconheça que a investigação exige elevados recursos financeiros, sublinha que os seus resultados têm potencial para gerar soluções duradouras para os desafios sociais e económicos de Moçambique.
Em entrevista ao canal One World Media, sublinhou que, embora a pesquisa exija elevados investimentos, seus resultados oferecem soluções duradouras para os desafios sociais e económicos do país, destacando ainda a importância da colaboração entre academia, sector público e privado. Acompanhe os trechos mais significativos da conversa:
Magnifico Reitor, quais são os grandes desafios que a Universidade tem pela frente, tendo em conta o desiderato que abraçou de transformação em Universidade de Investigação?
O grande desafio é o financiamento. A investigação científica exige investimentos elevados, mas os resultados dela são muito melhores do que as outras opções. Por isso, temos estado a insistir na necessidade de apostar, cada vez mais, na investigação, pois é ela que vai responder aos desafios do futuro da nossa sociedade.
Naturalmente, o custo da investigação, no momento em que ela acontece, parece caro, mas, do ponto de vista do resultado, é muito melhor.
O outro desafio é de natureza estrutural. O financiamento ao Ensino Superior, em Moçambique, ainda não incorpora a investigação propriamente dita. O que tem estado a acontecer é que os nossos investigadores recorrem a fundos competitivos para obter financiamentos que nos permitem realizar investigação.
É neste contexto que achamos que seria bom criarmos uma Unidade de Mobilização de Fundos, que é para especializar colegas para apoiarem investigadores, criando, assim, uma estrutura de suporte à investigação.
Mas os desafios estruturantes a que me refiro também tem a ver com desafios que a sociedade actualmente enfrenta. E, qualquer resultado positivo que possamos obter, também passa pelo sector produtivo. E este é um outro desafio, o de convencer o sector produtivo a envolver-se no processo de formação e investigação para responder aos desafios do país.
Tal como EUA, a investigação não acontece apenas no ambiente universitário, mas também no sector produtivo, no ambiente empresarial, onde estudantes, professores e investigadores são colocados nas empresas, com investimento das próprias empresas, para solucionar problemas concretos do sector.
Por exemplo, nós agora estamos a apostar na logística do país, mas que tipo de suporte científico e técnico têm para se ter a certeza de que as opções que estão a ser tomadas respondem melhor aos desafios do país? E mais, quais são as opções sob ponto de vista de decisões técnicas que garantam a sustentabilidade dessas decisões? Portanto, o desafio da investigação e do crescimento do país passam pela junção de esforços do sector público, a academia e o sector privado.
Num contexto em que o ensino superior tende a apostar na digitalização, podia abordar um pouco os desafios da modernização dos currículos, melhoria do ensino à distância e a integração das tecnologias de comunicação? O que a universidade tem em termos de tecnologias para fazer essa integração?
Nós já temos um roteiro e uma Estratégia de Transformação Digital. A nossa transformação deve começar nos nossos serviços internos; termos serviços internos administrativos que funcionam de acordo com os padrões modernos, termos uma formação de acordo com as tecnologias que são aplicadas no mercado, mas também incorporar à inovação de modo a reforçar as novas tendências na Universidade. Aqui, refiro-me ao facto de termos uma incubadora de negócios, onde temos estudantes a desenvolverem startups com o devido acompanhamento até a fase da legalização e contamos com parceiros da Itália e do Banco Mundial.
Portanto, nós apostamos na transformação digital, não apenas para os serviços administrativos, mas também na formação e na inovação, onde pretendemos nos focar nos próximos tempos.
A formação e valorização do corpo docente são factores críticos para garantir vantagens na academia e competitividade internacionais. Que políticas estão a ser adoptadas para aumentar o nível de Doutorados, incentivar a investigação e fortalecer a cooperação científica com universidades estrangeiras?
Temos a sorte de termos professores nossos formados em muitos contextos globais. O nosso relatório deste ano indica que vamos crescendo em termos de colegas com o nível de doutoramento e redução de colegas com nível de licenciatura. Fazemos, internamente, mas também através de parceiros.
Nós temos, aqui, dois Centro de Excelência que contam com o financiamento do Banco Mundial e que têm estado a capacitar muitos moçambicanos e estrangeiros, incluindo o sector produtivo, nas áreas de petróleo e gás e em sistemas agroalimentares e nutrição.
Portanto, estas formas de actuar permitem que a Universidade continue a formar, cada vez mais, não só para si, mas também para fora. Continuamos a reforçar a nossa parceria com vários países, porque só assim é que podemos nos internacionalizar.
Enquanto universidade pública de excelência, que iniciativas de responsabilidade social como a igualdade de género, a inclusão social e a sustentabilidade ambiental estão a ser colocadas em prática pela Universidade?
Nós, há dois anos, recebemos um prémio da AMOEFA, como reconhecimento do nosso trabalho na inclusão de pessoas portadoras de deficiência. Não fazemos a inclusão apenas no aspecto da infraestrutura, mas também no acesso a educação.
Só no ano passado, tivemos mais de 30 estudantes com necessidades educativas especiais. Não apenas estudam aqui, mas também foram alojados nas nossas residências. Isto significa que temos uma atenção especial com a inclusão. Na igualdade de género, também temos estado a aumentar o número de ingressos e de graduados nas áreas de engenharia.
Na sustentabilidade ambiental, temos uma iniciativa denominada “Campus Limpo”, um processo de socialização, apropriação da Universidade e dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), através de iniciativas institucionais. Estamos a implementar os ODS, na Universidade, em parceria com a Universidade de Córdoba, da Espanha e, simultaneamente, estamos a desencadear iniciativas de voluntariado para trazer os estudantes e a nossa comunidade a compreenderem como é que podemos preservar melhor o ambiente.
Porque entendemos que os jovens que estamos a formar são os que irão responder, posteriormente, pelo futuro deste país. Se eles compreenderem as questões da preservação do ambiente, estarão preparados para quando seguirem a vida profissional implementarem nas respectividas empresas onde estiverem inseridos.
Qual é a sua visão sobre a importância social da Universidade e o privilégio que tem de ser Reitor?
Não sei se é privilégio, mas é uma oportunidade de servir. Eu sinto que, como Universidade, precisamos de estar, cada vez mais, presentes nos momentos mais críticos da sociedade. Mas, aqui, a responsabilidade também é nossa, porque temos que nos reposicionar como instituições académicas com a nossa importância a relevância para os processos de crescimento.
Infelizmente, em muitos países africanos, a academia tem sido o parente mais distante dos processos de desenvolvimento, sendo útil apenas para formação de quadros. Mas este não é o único papel da academia.
Ao mesmo tempo que formamos também somos assessores do Governo, por exemplo, na elaboração de políticas públicas, bem como nos processos de investimento do país.
Por exemplo, nas questões relativas ao petróleo e gás, em Moçambique, a Universidade, através de colegas nossos, deixou recomendações sobre os padrões ambientais que deviam ser observados. Portanto, qualquer perspectiva de investimento e desenvolvimento do país deve passar por uma avaliação concreta da academia, para que sejam tomadas decisões com bases científicas. Este é um exercício que temos de continuar para fazer compreender a sociedade, em geral.
