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Línguas moçambicanas na era digital: Uma obra para escrever o futuro sem apagar o passado

A luta pela soberania cultural e tecnológica de Moçambique acaba de ganhar um novo e poderoso aliado, após o lançamento, na Segunda-feira, na capital moçambicana, do livro “Digitalização das Línguas Moçambicanas e a Inteligência Artificial: Desafios e Perspectivas”, uma obra colectiva coordenada pelos reputados académicos Professor Doutor Armindo Ngunga e Doutor António Ndapassoa.
Mais do que um mero livro, trata-se de um manifesto e um roteiro para garantir que o amanhã digital do país fale, literalmente, a língua do seu povo. A obra, composta por artigos de vários investigadores, propõe um caminho claro para a afirmação das línguas nacionais no ciberespaço, assentando em quatro pilares fundamentais: a padronização ortográfica, a criação de bases de dados linguísticos robustas, a promoção da produção de conteúdos digitais em línguas locais e, o ponto crucial, o desenvolvimento de ferramentas de voz e texto em inteligência artificial que compreendam e reproduzam o universo linguístico moçambicano.
Na apresentação, o Prof. Doutor Jorge Nhambiu lançou um desafio claro: “se Moçambique quiser ser protagonista na era da inteligência artificial, deve levar consigo a sua língua e a sua cultura.” Para ele, o futuro passa por formar investigadores capazes de gerar tecnologia “que fale na voz do povo moçambicano, e não apenas na voz de sistemas importados”.
A premissa encontra eco no mais alto nível governamental. O Ministro das Comunicações e Transformação Digital, Prof. Doutor Américo Muchanga, saudou o livro como uma “fonte importante para a formação de políticas públicas baseadas em evidências científicas”. Reconhecendo a inteligência artificial como uma tecnologia de duplo fio – capaz de gerar progresso ou dano –, Muchanga anunciou que o Governo trabalha na Estratégia Nacional de Inteligência Artificial e na criação de uma Comissão Nacional multissectorial para a sua regulamentação ética. “É crucial que o país avance para uma rápida regulamentação”, afirmou, ligando a política à urgência apontada pelos académicos.
O livro coloca o dedo numa ferida antiga: a necessidade de repensar a política linguística nacional. Para o Doutor Isaú Meneses, comentador da obra, “a língua é um dos vectores relevantes para a promoção, valorização e projecção das identidades”.
Neste sentido, digitalizar as línguas nacionais é mais do que um projecto tecnológico; é um acto de construção nacional. O alerta mais contundente veio de um dos autores. “A digitalização que se pretende visa salvaguardar os interesses do país para que nenhuma língua ou voz seja silenciada”, defendeu o Professor Doutor Armindo Ngunga. “O desaparecimento de uma língua humana significa o desaparecimento de uma cultura e de um conjunto de saberes. Nós não nos podemos dar ao luxo que tal aconteça.”
O evento, que reuniu linguistas e especialistas em tecnologia, marcou assim não só o lançamento de uma obra académica, mas o início de um debate sobre o lugar de Moçambique na Quarta Revolução Industrial. O desafio está lançado: construir um futuro digital onde as línguas moçambicanas não sejam apenas um vestígio do passado, mas a voz activa do amanhã.