
07 DE ABRIL: Mulheres da UEM partilham vivências e perspectivas
Moçambique assinala, amanhã, 07 de Abril, o Dia da Mulher Moçambicana, uma data que homenageia a bravura de Josina Machel, falecida em 1971, durante a luta de libertação nacional. Símbolo da emancipação feminina, Josina destacou-se pela sua firme actuação no seio do movimento libertador, defendendo o reconhecimento e a valorização dos direitos da mulher.
Nesta edição, reunimos depoimentos de mulheres que ocupam diferentes posições na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), entre directoras, docentes, estudantes, antigas estudantes (alumni) e técnicas administrativas, que reflectem sobre a condição da mulher na instituição e apontam caminhos para o reforço da igualdade de género.
De forma geral, as entrevistadas reconhecem avanços significativos em vários sectores, destacando a aprovação da Estratégia de Género e do Regulamento de Combate ao Assédio Sexual como marcos importantes na promoção e valorização da mulher na UEM.
Apesar dos progressos, os dados institucionais revelam desafios persistentes. Actualmente, a UEM conta com 1.708 docentes, dos quais 474 são mulheres e 1.234 homens; 107 investigadores, sendo 49 mulheres e 58 homens; e 2.285 funcionários do Corpo Técnico Administrativo, dos quais 928 são do sexo feminino e 1.357 do sexo masculino.
“Ser mulher na academia é educar a sociedade e inspirar gerações”
-Professora Doutora Natasha Ribeiro
Natasha Ribeiro, investigadora com mais de 30 anos de experiência em ensino e investigação, partilhou, em entrevista por ocasião do Dia 7 de Abril, os desafios e conquistas de ser mulher no meio académico. Para ela, o maior desafio tem sido equilibrar a vida profissional com as responsabilidades familiares, mas olhando para trás, não se arrepende do caminho escolhido.
O que significa ser mulher no meio académico e científico?
Como qualquer membro da sociedade, ser mulher no meio académico é uma mais-valia. É ter a oportunidade de educar a sociedade. Ser mulher implica uma responsabilidade adicional: somos mães, filhas, irmãs, e essas responsabilidades familiares têm de ser adaptadas ao contexto académico.
Quais são os principais desafios das mulheres na Universidade?
O desafio mais relevante é equilibrar a vida profissional e a vida familiar. Ao longo de mais de 30 anos, enfrentei muitas batalhas e queixas familiares, mas valeu a pena. Hoje, recebo reconhecimento não só pelo meu contributo para a minha família, mas também para o país.
Entretanto, não penso que sejam desafios exclusivos das mulheres; qualquer membro da comunidade universitária enfrenta-os, especialmente num contexto social complexo e num mundo globalizado. Porém, cruzar os braços não é uma opção. Ao longo da minha carreira, pautei-me pela constância como educadora e produtora de conhecimento, procurando sempre elevar a UEM a padrões internacionais.
Que mudanças têm observado em relação à igualdade de género na UEM?
Não trabalho focada no género. Contribuo para a comunidade universitária como académica, independentemente de ser mulher. Mas noto progressos: há mais equilíbrio na docência, investigação e gestão. Entre estudantes de graduação e pós-graduação, os números vêm se equilibrando, caminhando em direcção ao Objetivo 5 da Agenda 2030.
Contudo, equilíbrio deve ser acompanhado de qualidade. Não basta igualdade numérica; a excelência académica deve prevalecer. Pauto-me pelo rigor e pela qualidade do trabalho, independentemente do género.
Que oportunidades a Universidade oferece para o crescimento profissional?
Formar quadros e produzir conhecimento é uma missão nobre que, para mim, já é uma grande oportunidade. A UEM foi determinante, ingressei como licenciada e toda a minha formação até ao doutoramento foi proporcionada pela instituição, que me abriu portas para o mundo internacional.
Não faço investigação ou consultorias por mim, mas como representante da UEM. Sou profundamente grata à instituição por me permitir contribuir para a ciência e para o país.
Que mensagem deixa por ocasião do 7 de Abril?
A minha mensagem é de reconhecimento da mulher moçambicana, que enfrenta inúmeros desafios. Temos que ter em conta que a nossa sociedade ainda é machista e o papel da mulher é exercido sob grande pressão, tanto no âmbito familiar quanto profissional.
Quando celebramos o Dia 7 de Abril, pensamos na figura de Josina Machel, mulher guerreira, mãe e esposa, que lutou para que a mulher moçambicana tivesse um papel na sociedade.
“A academia é também um espaço das mulheres”
– Prof.ª Doutora Ezra Nhampoca, Directora da ECA

Para a Profª Doutora Ezra Nhampoca, Directora da Escola de Comunicação e Artes (ECA), ser mulher no meio académico implica estar preparada para afirmar, de forma contínua, que a academia é também um espaço pertencente às mulheres, contrariando um passado em que este lhes era frequentemente negado. “Por isso mesmo, torna-se um desafio constante para a mulher, porque temos sempre de demonstrar o nosso valor”, afirmou.
Na sua perspectiva, ser mulher na academia significa igualmente enfrentar não só os desafios académicos, mas também aqueles que decorrem das relações de poder e de género, historicamente enraizadas.
A Directora da ECA observa que, quando os homens ocupam espaços de decisão, tal é geralmente visto como algo natural. No entanto, quando são as mulheres a assumir essas posições, a sua presença é frequentemente questionada, não apenas em cargos de gestão, mas também em contexto de sala de aula. Segundo disse, persiste ainda a ideia de que o exercício científico é predominantemente masculino.
Perante este cenário, defende que as mulheres devem adoptar posicionamentos firmes e ações assertivas, demonstrando que, tanto a sala de aula como os espaços de decisão, dentro da universidade, pertencem a todos, homens e mulheres.
Reconhece que ainda há um longo caminho a percorrer, mas destaca os avanços já alcançados, como a aprovação de instrumentos fundamentais, entre os quais a Estratégia de Género e o Regulamento de Combate ao Assédio Sexual. Na sua opinião, estes documentos têm contribuído significativamente para o fortalecimento das ações de combate às desigualdades de género na instituição.
Ezra Nhampoca sublinha ainda o papel da direcção máxima da Universidade na valorização contínua das mulheres. “Temos assistido, nos últimos tempos, à nomeação de várias mulheres competentes, que já deveriam ter sido chamadas há anos para essas posições”, destacou.
Por ocasião do Dia da Mulher Moçambicana, celebrado a 7 de Abril, Ezra Nhampoca deixou uma mensagem de felicitações a todas as mulheres da Universidade, incluindo docentes, investigadoras, funcionárias do Corpo Técnico e Administrativo (CTA) e estudantes.
“Mulheres devem conquistar o seu espaço pelo conhecimento”
– defende Maria Atália, docente da ECA
As mulheres devem afirmar-se no meio académico com base no conhecimento e no mérito, e não apenas por políticas de equidade de género. A posição é defendida por Maria Atália, docente do curso de Teatro na ECA. “Não me sentiria orgulhosa por ocupar um lugar apenas por ser mulher. Prefiro conquistar o meu espaço pelo conhecimento, porque sei que tenho algo a oferecer”, afirmou.
Para a docente, embora sejam visíveis os avanços na promoção da equidade de género na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), é fundamental que tanto homens quanto mulheres ascendam com base nas suas competências e no seu esforço individual.
Neste contexto, aponta como um dos maiores desafios a necessidade de investimento contínuo na formação e na aquisição de conhecimento. Segundo explica, a consolidação da presença feminina na academia depende da capacidade de as mulheres se prepararem constantemente para responder às exigências do meio.
Maria Atália considera, ainda, que ser mulher na academia é um privilégio, sobretudo por se tratar de um espaço historicamente dominado por homens. No entanto, defende que essa presença deve ser sustentada pela competência, sem que se perca a identidade e a sensibilidade feminina. “Para mim, é motivo de orgulho, porque não cheguei aqui graças à chamada equidade, mas sim pelo meu próprio esforço”, sublinhou.
Com um percurso que começou como estudante do curso de teatro e evoluiu até à docência na mesma área, acredita que a universidade oferece oportunidades de crescimento para todos, independentemente do género.
Dirigindo-se às mulheres da instituição, deixa um apelo à mudança de atitude: “Precisamos sair do lugar de lamentação. Em vez de dizer que não nos deixam ser algo por sermos mulheres, devemos apostar no conhecimento, lutar e trabalhar para alcançar o próximo nível”, concluiu.
“Conciliar múltiplos papeis é o maior desafio das mulheres”
-Mestre Kátia Filipe, Directora de Cultura
Segundo a Mestre Kátia Filipe, Directora de Cultura da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a gestão do tempo constitui um dos maiores desafios enfrentados pelas mulheres, sobretudo devido ao seu papel social multifacetado. Entre as responsabilidades como mães, esposas, docentes, muitas vezes acumulando quatro ou mais funções num único dia, recai ainda sobre elas uma exigência constante de perfeição.
Apesar destas pressões, destaca a “capacidade quase mágica” que as mulheres possuem para conciliar diferentes tarefas e cumprir, com dedicação, os seus diversos papéis.
Kátia Filipe considera, igualmente, que a UEM se destaca como um dos principais exemplos a nível nacional no que diz respeito à crescente presença de mulheres em cargos de chefia e posições de relevância.
Na sua visão, a Universidade tem vindo a afirmar-se como uma instituição que promove oportunidades com base em critérios de competência, meritocracia e brio profissional, afastando-se de distinções baseadas no género.
Para a Directora de Cultura, estes princípios são fundamentais para a valorização dos profissionais, devendo o reconhecimento assentar nas capacidades e no desempenho, e não no facto de serem homens ou mulheres.